segunda-feira, 31 de agosto de 2009

IMITADOR DE VOZES, Thomas Bernhard



Para quem não o conhece ele é um dos maiores pessimistas após Samuel Becket, e quando falo em pessimismo estou colocando o bile como constituinte principal das histórias que ele narra. Thomas falecido desde 1989 tem sua obra redescoberta cada vez mais, talvez por se assimilar cada vez mais com o mundo cinza no qual nos vivemos. Se em um de seus romances ele faz um monólogo desconcertante que s[o tem dois parágrafos em 400 páginas. Aqui ele produziu um livro de contos de 160 páginas, tendo pouco mais de 100 contos. Você lê em uma sentada se for normal, eu no caso me canso muito amis lendo contos do que lendo romances então demorei quase uma semana, o que na minha singela opinião não constitui uma normalidade.
A caraterística principal dos contos e do próprio autor e não deixar nenhuma qualquer bondade para suas personagens, devemos ter uns 40 suicídios de maneiras usuais e até surpresas como um juiz que no meio do julgamento dispara seus miolos contra o cenário, temos algumas tragédias com um ônibus com estudantes que cai na ribanceira, discussões filosóficas que não resultam em nada e ainda fazem seus protagonistas cometerem suicídios em massa, e morte, e morte, e morte. Você vai ficar chocado nas primeiras página, depois você vai aceitar o jogo e talvez o fato de se achar isso natural seja o ponto extra-texto mais interessante, além do paralelismo que podemos ver deste pessimismo com a história do império Austríaco, mas não é intuito desta análise mostrar as correlações de Bernhard no meio político, mas sim salientar que a grande habilidade de ainda sim criar uma narrativa que ainda sim não perde seu leitor, em vários momentos você acha que está lendo a mesma história contada de maneira diferente (o que é o caso), mas há contos específicos como os que citei que ficam na memória não deixando o interesse pelo livro cair. Uma obra leve em tamanho complexo em densidade mas uma boa introdução a este autor que é fascinante.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

VENTO DA LUA, Antonio Munhoz Molina


O quase desconhecido autor espanhol em destaque talvez o seja por seus temas pouco usuais, Vento da Lua é um romance que narra a experiência de um garoto nos cinco dias em que a Apollo 11 começou seu curso para aterrizar na Lua, ou seja, é um romance que mostra a conquista lunar do ponto de vista de um menino castelhano pobre. A pergunta que fica é quem quer ler isso?
Algumas vezes podemos sentir isso ao ler o resumo de certa novela, conto ou romance. Da duas uma ou é uma porcaria ou é muito mais do que pode caber em meros resumos. O que vale a um leitor intrépido um risco a se correr, e felizmente nesse caso estamos diante da segunda hipótese.
A viagem a Lua é eixo central da estrutura do romance, todas as reflexões de nosso narrador estão inseridas nesse contexto. A escolha por essa narrativa pode ser biográfica mas não conheço o suficiente o autor para averiguara esta, mas tenho certeza que o fascínio que garotos tem por piratas, dinossauros e, acima de tudo, astronautas pode explicar os desejos desta criança em ser um astronauta, os pulos que ele dá assumindo a exploração espacial para sua própria exploração psicosocial.
Em uma região afastada do centro, sob uma ditadura ainda que repercute, sendo o mais inteligente da família, em meio a dúvidas religiosas e os primeiros desejos sexuais, aborrecido pela vida entre bananeiras a qual é submetido dia-a-dia. É pano para chão e quase não cabe nas quase trezentas páginas do romance. Os coadjuvantes são igualmente ricos, o pai que ignora todo o avanço e quer que o filho trabalhe mais e estude menos, o vizinho pão-duro à beira da morte, a avó que tem sempre uma pérola na língua para soltar, o padre jovem que o quer converter e tem todos os pensadores socialista em sua cabeceira e a lista não para por aí.
Molina faz uma narrativa em que memórias se mesclam com aforismos, o engraçado ao dramático mascarado, os pensamentos conduzem a formação deste herói contemporâneo lutando contra o próprio meio existêncial. Mas o melhor em um romance tão perfeito é o seu final, em ainda consegue um fôlego extra em nós dar o verdadeiro peso das memórias, o peso da conquista espacial e resignificar mais uma vez o tema já pontuado, fechando assim com arco de ouro a reflexão sobre a vida e o tempo. Fantástico em muitos sentidos.
Agoa vou ler um romance sobre imigrantes na América pós 11/09, em que o eixo central são as conversas em jogos de críquete. Veremos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Valores invertidos em tempos incertos



Inimigos públicos é novo trabalho de Michael Mann, um diretor que não é dos mais reconhecidos em solo americano, mas é, na minha opinião, um dos mais tecnicamente perfeito cineastas do novo cinema americano. Dois de seus filmes são obras primas dentro do gênero: O informante e Colateral. Uma de suas características é usar uma câmera quase documental, o que se amplia na atualidade, uma vez que ele anda filmando com câmeras digitais de alta-definição. Um outro fator decisivo é como ele retrata nosso mundo com um cinza característico em que nada é certo, e um vilão como Tom Cruise pode ter a simpatia do espectador com poucas palavras.
Talvez ele tenha produzido o melhor exemplar desta visão invertida dos valores nesse seu novo trabalho, uma cinebiografia de John Dilligan, um assaltante de bancos que foi o primeiro inimigo público durante a depressão. Caçado em todos os Estados por seus delitos, Dilligan foi morto em 1934 pelo recém criado FBI. O filme, no entanto, não narra a vida Dillinger desde a infância até seus momentos finais, preferindo se concentrar nos seus últimos anos, entre 33 e 34, assim sendo vemos a queda do mito, e o caminho é sofrido.
Interpretado por Johnny Depp, nas mãos de outro ator ele poderia ou ter se tornado um herói virtuoso, ou uma caricatura de gangster, já que olhando analiticamente o personagem quase não tem passado, ou explicações do porquê ele fa isso, a única coisa que notamos é que um assaltante de banco, que é virtuoso e leal. Tirando o fato de ter sido caçado em todos os Estados, ele é de longe um espécie de herói no filme. Johnny equilibra essa dualidade até o fim, levando seu personagem a canastrice de suas ações, a tensão proveniente de se estar cada vez mais acuado e sem fuga. Seu par romantico é a bela Marion Cottillard pós-Piaf, que dentro de um papel limitado faz um excelente trabalho.
Agora o ponto alto do filme não é caça de John Dillinger e sim o apogeu do Bureau de Investigação que é alçado na perseguição destes criminosos por Christian Bale, interpretando um personagem igualmente dual, ele lidera a caça enquanto o futuro FBI começa a utilizar uma atitude cada vez mais repressora e fascista para conseguir os resultados, tal como tortura, prender pessoas inocentes, coação e um série de delitos que vão sendo justificados para manter a ordem.
É um filme tenso, resumindo, em que o bandido é o mocinho, a lei se torna a vilã. Em que os valores estão desvirtuados e invertidos e essa seria nossa percepção brasileira, mas dentro do contexto americano é ainda pior, uma vez que os assaltos a banco desta época são vistos como a última opção de pessoas desesperadas com a depressão, e os bandidos eram vistos como Robin Hoods modernos, vide a fama que Bonnie e Clyde tem até hoje. Michael Mann ainda cria cenas belíssimas como a mOrte do Amigo de Dillinger nos primeiros minutos do filme ou a morte de Baby Face Nelosn, na melhor cena. Mas não se enganem não é um filme de ação, ou um blockbuster de verão, muito menos um filme de gangster normal, é m filme inclassificável em uma época em que uma nva depressão nunca este tão próxima dos EUA.

domingo, 9 de agosto de 2009

APÓS O ANOITECER, Haruki Murakami



Na madrugada de Tóquio uma moça está a solta pelas ruas e bares a procura de nada mais que um lugar sossegado para efetuar sua leitura, em outro ponto sua irmão dorme profundamente, em um estado estranho de semi-coma, enquanto à la Ringu sua televisão começa a mostrar imagens estranhas que estão relacionadas a sua presente condição. Não sei definir se essa é a melhor maneira de entrar no mundo de Murakami, uma vez que você pode achar a trama um tanto absurda ou desconexa, mas caso você tenta mente aberta e uma vontade louca de supor uma explicação para fatos absurdos vai achar o livro divertido.
Um primeiro ponto a se notar é que este romance é uma pegadinha, Murakami utiliza um ponto de vista de câmera, sempre nos lembrando de que ele é um câmera e não vai dar explicações, não vai fazer nada para nos ajudar e sim simplesmente mostrar um série de fatos que estão amis ou menos interligados. Além destas duas personagens temos um músico que fala demais, que infernizara a vida protagonista no bom sentido, uma ex-boxeadora que é gerente de hotel, um prostituta chinesa espancada, um homem sem face que comanda o lado-de-lá da tv e um homem que tem uma outra personalidade violenta (ou não). Sim, é uma salada de personagens unidos pela madrugada que os consome. Mas por que é uma pegadinha mesmo? Porque no fundo disso tudo está o intuito de se resgatar o amor e afetividade humana, observando as bases que a constroem, não é um livro de terror como o autor faz muitas vezes parecer, ou uma trama complexa sobre a psiquê humana, muito menos um multiplot sobre a boêmia nipônica, é simplesmente um retrato de duas irmãs muito diferentes entre si tentando se encontrar, cada qual em um mundo distinto, sendo que o que prevalece é uma extrema sensibilidade por parte do autor.
As melhores partes do livro estão em como ele constitui o clima de sua história, que em muitos momentos parece dialogar diretamente com o cinema e com a reCente safra de filmes de terror que infestam o país do Godzilla. Uma dupla pegadinha. E também saliento os diálogos espertos da juventude de Tóquio, principalmente entre Eri e o músico, que ´no fundo o coração do livro. Muito bonitinho.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

TOP 5: CLINT EASTWOOD

Um tempinho nos livros. Aqui vou fazer o meu top do Clint, que para mim é melhor diretor americano da atualidade, concordem ou discordem ele é o Cara.

6 – Cowboys do Espaço – é um top meu. Um característica de Clint é nunca fazer um filme que se ligue diretamente com um gênero, o que deveria ser um filme de Ficção científica, que nas mãos de outra pessoa viraria um Armageddon ou algo do tipo se torna uma bem humorada comédia de ficção científica em que a terceira idade vai para o espaço consertar um satélite defeituoso que pode cair em nossos cocos. Alternando momentos de comédia, suspense e aventura, além de Clint o outro destaque é o impagável Tommy Lee Jones.
5 – Batalha de Iwo Jima – Não vou considerá-los separados, uma vez que a complexidade da história está em mostrar os dois lados. Flags of our fathers, com o título de Conquista da Honra, que não tem nada a ver, mas é melhor que Bandeiras de nossos pais que poderia ter um duplo sentido estúpido, é um filme de não-guerra. A parte americana do confronto não instiga o heroísmo e sim a barbárie primeiramente do campo de batalha, intercalando com a objetivo mercadológico da guerra de arrecadar fundos. Cartas a Iwo Jima, é a batalha por excelência, mas da parte dos derrotados. A guerra que não se encaixa no filme de guerra.
4 – Sobre Meninos e Lobos – Policial intenso sobre os crimes contra crianças e adolescentes. Ois meninos veem seu amigo ser sequestrado, ele sofre abuso sexual por policiais na década de 70, ele foge mas sua vida nunca mais será a mesma. 30 Anos depois eles se reencontram em caso similar, mas sem abuso sexual. Um teve a filha assassinada, o outro é um policial e o sobrevivente é um cara estranho que pode ser o suspeito número um. Como estudo sob a ótica da maldade é ótimo, como alegoria de um país pós 11/9 é sutil, mas sua cena final é retrato de tudo que há de vil na alma humana.
3 - Gran Torino – Último grande filme o mestre até o momento. Seria um filme de ação? Poderia até ser, pois Clint encarna o esteriótipo ao qual era associado antes de Bird, o cara durão que resolve tudo no tapa. Revisitando o gênero, ele simplesmente destrói ao demonstrar que Dirty Harry não pode existir no século XXI. Walter Kovacz, veterano de guerra, preconceituoso, cínico, ateu e odeia todo mundo! Sua vida muda, quando a mulher morre e ele percebe que a vizinhança está cheia de uma tribo muito parecida com coreanos, mas são refugiados vietnamitas. Há uma gangue que controla a região e tenta por meio da força converter o vizinho de Kovacz para o crime, o menino desperta uma curiosa simpatia por Kovacs que vai dar uma de Dirty e salvar o menino e sua irmã,mas ele vai ter que transpassar a força física para isso, n filnal mais sombrio e inesperado que você pode esperar. Fantástico.
2- Menina de Ouro – Quase chorei... mentira eu chorei e eu já sabia o final. Um filme de boxe que tem uma mudança repentina no final, que nos faz repensar a vida. Maggie um dia aparece na academia de boxe do personagem de Clint, ele não treina mulheres, mas logo vai fazer dela sua obra prima. Com um humor melancólico e ótimas interpretações, Maggie enfrenta batalhas poderosas, inclusive contra o moralismo. Não consigo esquecer a frase que sintetiza o filme “ No boxe você tem que ir para trás para se lançar a frente. No boxe tudo é ao contrário”
1 – Imperdoáveis – Era manjado, vide que eu já fiz uma matéria especial para o filme, mas vale salientar que a obra de faroeste mais importante da década de 90, talvez de 80 70 também, e atualmente devo dizer que também é. O Faroeste revisitado em sua glória e em sua dura realidade que destrói o mítico.
Um dos melhores filmes de todos os tempos.

sábado, 1 de agosto de 2009

CONVIDADO SURPRESA, Gregoire Boullier



Possivelmente a maior decepção deste segundo semestre, O convidado surpresa está mais para livro de alto ajuda “Como superar um relacionamento em festas” do que para algo que tenha um grande romance da literatura francesa, alias a própria classificação de romance é algo que pode ser colocado em xeque, uma vez que o episódio narrado realmente ocorreu.
O grande interesse pelo livro começou na Flip deste ano, quando a mesa 12 iria reunir a mundialmente famosa artista plástica Sophie Calle e nosso autor para um bate papo sobre relacionamentos. Motivos ele namoraram durante três anos. O tempero estaria por conta do fim abrupto que o relacionamento teve, que segundo Sophie teria sido por meio de um e-mail. A novela ganha mais sabor quando sabemos que este fora o primeiro encontro público dos dois. A confusão estava armada com dois meses antes do evento e o pior é que foi a mesa mais discutida e que todos gostaram mais, o porque disso eu não sei, eu não vi a mesa pois estava trabalhando no evento, mas a curiosidade fora muito instigada por toda esta historinha por alguns outros motivos.
Sophie Calle é louca de pedra como toda boa artista plástica, ela pegou o e-mail e enviou para diversas pessoas para ver como estas responderiam, o que não é só dar a volta por cima, como também desmerecer o crápula e fazer barulho com o ocorrido. Não entendo nada sobre artes plásticas, mas sei o quanto Sophie é original e esperta. Engatilhado nessa história foi lançado este que é um romance de 2004 sobre como ele conheceu Sophie.
E você, caro leitor, deve estar gostando dessa salada que só aumenta, e lendo o livro de Gregoire você até começa a achar muito cínico o fato de ele começar o romance xingando a antiga namorada que foi embora sem falar nada, e quando ele conhece Sophie quais são as primeira impressões da moça que não para de sorrir e ler o famoso caso do vinho que os fez se conhecerem na realidade, até mesmo a opinião estúpida que ele tem sobre artistas e escritores, e logo você começa a pensar que tudo o que você acha graça é de seu conhecimento prévio e que a parte mais engraçada estão no lado de fora do romance, com toda essa confusão do antes e do depois que nós temos, mas quando analisamos o romance por sua real extensão de ser autosuficiente, ele o é, ao retratar um personagem que se embate dentro de uma festa sobre os sentimentos que ele ainda tem por sua antiga namorada e isso é tão enfadonho. As melhores sacadas de seu monólogo são aquelas que o afastam dos pensamentos amorosos, não porque eles são fantasiosos, pelo contrário, mas sim porque eles são um lugar comum e se reiteram a cada minuto. Decepcionante na minha opinião especialmente na metáfora do Ulisses, mas se você gosta de “Sobrevivendo a separação” e outros do gênero, você vai se divertir.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

MORTE DO GOURMET, Muriel Barbery



“Na intersecção da crosta com o miolo em compensação, é um moinho que toma forma diante de nosso olhar interior,a poeira do trigo voa em torno da mó, o ar infestado pelo pó volátil, e nova mudança de quadro, pois o palato acabou de esposar a espuma alveolada libertada de sua carga e o trabalho dos maxilares pode começar. É mesmo um pão.”


Não seria exagero supor que marroquina naturalizada francesa tenha em sua cabeceira La Recherche... em edição de luxo comentada, uma amostra do que é o pequeno e poderoso trabalho que foi lançado no Brasil, enquanto Proust se contentava com a modesta madeleine, Muriel nos dá vários pratos desde a comida caseira, a sorvetes e frutos do mar e outras maravilhas, das quais confesso não ter experimentado nenhum, mas até aí você pode saborear o romance com a mesma avidez que nosso personagem nos narra pela simplicidade da história e a estrutura esperta que o faz fluir bem.
A história alias é bem parecida com a do recente Leite derramado, um homem agoniza em seu quarto esperando a morte que vai atingi-lo dentro de 48 horas, seus únicos pensamentos são uma procura para relembrar um gosto maravilhosos que é o mais perfeito que já sentira, contudo ele não consegue associar ao momento em que ocorreu, começa então uma odisséia de 120 páginas atrás dos momentos da vida dele cada um com um sabor, literalmente especial, aliado a isso está a manjada reflexão sobre a vida e resoluções que o acompanham. Mas não se enganem Muriel tem um pulso firme para fazer descrições maravilhosas como a do fragmento, e também utiliza muito humor fino para não deixar o interesse do leitor cair, então você não precisa ter um gosto culinário muito específico para apreciar o deleite.
A estrutura é esperta pois com todo o requinte do mundo, habilidade narrativa e tempo cômico ainda haveria uma grande possibilidade de torná-lo maçante, mas ao lado dessa odisséia temos vários outros personagens que conhecem o gourmet e suas perspectivas sobre a morte deste, algumas engraçadas outras melancólicas. Ela consegue mudar o jeito de escrever para tornar cada relato uma voz própria dentro do romance, tem habilidade de sobra e demonstra ser uma escritora para se acompanhar nos próximos anos, aqui no Brasil foi lançado anteriormente Elegância do Ouriço, um romance filosófico que cronologicamente é seu segundo romance, o primeiro é este, e o interessante é que os personagens são o mesmos e até o personagem a beira da morte é situado na Elegância. Criar um universo por meio de romances distintos reforça minha ideia sobre o livro de cabeceira e talvez Muriel esteja tentando levar a a apagada literatura francesa atual, em busca de seu tempo perdido. Boa sorte a ela.

domingo, 26 de julho de 2009

FLORES, Mario Bellatin


" Uma mulher na Itália depois de tentar drante muitos anos, com seu marido, a adoção de uma criança sul-americana, acabou atirando- a aos trilhos do trem"

Quando este livro foi apresentado a mim a alguns meses atrás, foi descrito como um livro de contos que eram meio que intercalados, uma mentira deslavada! Mas é um desses livros no qual qualquer classificação vai se falha. Um romance pequeno, uma novela complexa ou contos que giram em um mesmo eixo temático, a verdade é que não importa, Flores é esquisito!
Dois pontos a serem vistos antes da leitura: Mario Bellatin não tem um braço. Ele mesmo diz que vai tentar fazer uma narrativa em que seriam contos com nomes de flores para serem lidos independentemente de um contexto, ao mesmo tempo que faria uma narrativa complexa tentando utilizar os mesmo para construir algo, que seria uma novela ou romance, e anexo a isso o fato dele ter uma escola de escritores no méxico, ou seja, ele é bem prepotente. Mas isso é legal, pois Flores é legal! Contudo devo dizer que ele falha miseravelmente na primeira proposta, visto que esses contos não podem ser apreciados separadamente, simplesmente não rola em vários deles em que é necessário uma contextualização, em todo caso essa proposta caiu muito bem quando consideramos que é um novela e vemos ela como inovadora na estrutura de novela, mas foi cagada, vide que o intuito foi fazer um livro de contos... contudo como disse Flores é legal.
A história é fantástica com certos pontos de realidade: Um remédio que fora comercializado para controle de hormônios, anos depois é descoberto que ele responsável por vários nascimentos de crianças deformadas, em alguns casos como na Alemanha até mutantes são criados. Junte-se a isso um escritor tentando se encontrar espiritualmente e sexualmente, um casal em crise, um homem que ama velhinhos, e digo isso com a parte mais carnal da sentença, e uma mulher com gêmeos destituídos de braços e pernas e vários outros fragmentos que se intercalam da violência dos pais para com os filhos, seja ela intencional ou acidental. A salada tá feita!
Um dos eixos significativos é esse relacionamento entre pais e filhos que é salientado em vários pontos, outro eixo forte é o tema da amputação tanto a física quanto nas partes emocionais dos indivíduos que estão a procura de algo para acreditar ou amar, pois estão amputados destes sentimentos e como eixo mais forte e central, há um permanente questionamento a respeito dos limites da ciência em nossas vidas. Como se ela fosse o responsável por tudo o que vemos no livro. Não é por acaso que aquilo que deveria curar cause um mal terrível e que um doutor lucre com isso, enquanto grande parte da população sofre da destituição da carne. Flores é pesado em sua brevidade, e aterrorizante em sua concepção fria da história. Bellatin se afasta o máximo possível de seus personagens (alias o escritor se chama Mario Bellatin), o que é um duplo cinismo, pois as flores aparecem em quase todos os capítulos são artificiais, elas enfeitam, elas só constam, e também porque flores são a linguagem poética por excelência e o livro não tem nada de poético, essa permanente artificialidade só aumenta a crítica á ciência.
Um livro forte e bem construído, contudo não é oitava maravilha do mundo, alias sua falta de final pode irritar muitas pessoas, mas creio que deve ser escutado ao som de Flores do Titãs que é acompanhamento perfeito.


“... os pulsos cortados e o resto do corpo inteiro.
Há flores por todos os lados, há flores em tudo o que vejo
(…)
As flores tem cheiro de morte.
A dor via curar esses cortes.
Flores.
As flores de plásticos não morrem.”

LEITE DERRAMADO, Chico Buarque



“Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é por que certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida”



Um homem agoniza em seus derradeiros momento em um hospital, seu nome é Eulálio e sua idade é avançada, suas memórias são contadas a algum personagem que pode ser tanto uma das enfermeiras, a filha, a neta, ou qualquer um que ele cita ser o interlocutor de seu monólogo, sendo que o principal, somos nós, os leitores do novo romance de Chico Buarque. Esse é o plot de Leite derramado, o título mais bonito do autor, que revelou que detestou o título.
O fragmento acima mostra  todo o brilhantismo do livro. Suas lembranças são aleatórias, repetitivas, com um misto de alucinação, não no sentido surrealista do termo mas na perspectiva que a realidade está em permanente remolde. Temos uma ideia central que é toda vez colocada em destaque no jogo, o destino de Matilde, a falecida mulher do protagonista. Quase a todo capítulo ele reconta como conheceu ela na Igreja e como ela desapareceu em uma noite qualquer...
Aos poucos também somos apresentados aos outros protagonistas: Dubosc, um Escobar moderno, Maria Eulália, a filha que não liga para ele, e neto que se desdobra em bisneto e tataraneto.
Somente no final você consegue delimitar quem fez o que, por que uma coisas mais interessantes do livro é seguir por sua leitura, redescobrindo ou desvendando os mistérios da linhagem dos Eulálios, grandes nobres reduzidos a um homem destruído em todos os planos, agonizando em um hospital prestes a ir para o hospital público (ou já está lá e não sabe?) coisa que ele tem temor, o que é o mais interessante em Eulálio é como ele é totalmente representante de um outro século, preconceituoso com negros, patriarcal, ele olha o passado como seu maior troféu, o que em determinado ponto é verdade.
Como um outro ponto a se notar na leitura, é o sentido de destruição que atravessa vida deste homem, como uma alegoria das tradições destruídas em detrimento da evolução temporal. Eulálio sendo um representante do outro século, vê a honra familiar evaporar-se , o conceito político ir para o espaço com um dos descendentes, a juventude se imolar no apogeu das drogas e por fim vê seu tataraneto se tornar muito rico sem fazer quase nada. Aos 100 anos ele não faz um balanço destas coisas, alias quase nem raciocina somente conta, e com esse turbilhões de coisas sendo lamentadas nas quase 200 páginas seu ponto de escape é a imagem de Matilde, que era mulata coisa que ele tenta negar até o fim, possivelmente a única coisa que lhe trouxe genuína alegria.
Um livro triste, e diga-se de passagem belamente acabado em suas últimas páginas, no mínimo umas dez vezes melhor que Budapeste. Vale todo o alarde que fazem dele.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Treino de quadribol



Eu deveria estar falando de TV aqui, sobre a nova temporada de HOUSE, o retorno de LOST, as novas series, mas sinto que este blog necessita de algum divertimento concreto.
O widget ai em cima é mais uma forma de promover o jogo Harry Potter e o Enigma do Principe , são tres desafios ligados ao Quadribol, muito fácil, é claro, e está dedicado à criança dento de cada um de nós.
Divirtam-se crianças!!!!!

domingo, 19 de julho de 2009

PRIMAVERA NUM ESPELHO PARTIDO, Mario Benedetti


"... mas sentindo-se estupidamente culpado e sua liberdade, e a outra estava lá, em clausa e em luta, acompanhada e solitária pensando provavelmente em mim, pensando em mim me sentindo estupidamente culpado"

“Pode o tempo mudar quem amamos?” na contracapa do livro esse comentário resume toda a obra deste que foi um dos nomes principais da literatura latino-americana, e é com muita tristeza e pesar que falo foi, pois ele faleceu há alguns meses. Tendo escrito A trégua o que já seria um feito inigualável, Primavera é uma obra tão boa quanto senão m certos aspectos superior.
O genial da composição é que ao mesmo tempo em que ela pode ser sintetizada na sentença acima, é uma questão muito complicada. A Trégua é o romance do reencontro do amor e de todos as bifurcações deste, Primavera é seu oposto é como se dá a perda incondicional mesmo com todas as circunstâncias a favor.
O eixo da história é o relacionamento de Santiago e Graciela, casados há dez anos e separados á cinco anos, porque Santiago foi preso na ditadura (o romance se passa 1980), assim ele vive suspenso do tempo relatando em cartas apaixonadas a nostalgia e memória de seu tempo livre, assim como seus sonhos e esperanças, do outro lado temos a voz de Graciela que se dá conta que não precisa mais de Santiago, pelos rumos que a vida tomou, pelo amor que não tem mais no coração por Santiago. E no meio disso ainda temos as impressões do pai de Santiago, vivendo um novo amor e a realidade de um filho enclausurado, Beatriz a filha de nove anos, um outro personagem que funciona como a voz de Rolando Austero, um novo amor na vida de Graciela, cada um com sua perspectiva da história, e ainda temos a parte real, os relatos de Mario Benedetti nos países em que passou durante seu exílio.
Assim temos um plano em que a perseguição política, violência cega e perigo iminente constituem o panorama do Uruguai durante a ditadura (1975-1985), mas no plano central temos uma intensa discussão do que é amar nos tempos modernos, o que é salientado pelo destino do pobre personagem de Santiago, preso por sua vida e condenado a sofrer em sua volta para casa, ele é o mais inocente dos personagens e mais trágico, em dado momento Graciela comenta que se Santiago estivesse ali seria mais fácil, seria normal, ela estaria desapaixonada por ele e eles resolveriam isso como duas pessoas em processo de divórcio, o que não é natural é ele estar preso. Será? Não são as respostas que nos satisfazem, mas essas perguntam retóricas que nos alumbram, em dado momento ela pergunta ao sogro se deveria contar que não o ama, e ele diz que se fizesse isso ele não teria perspectiva e sucumbiria. Não há resposta fáceis no teatro da vida alguém disse certa vez e o livro de Benedetti comprova isso e também concorda com os preceitos de Zygmunt Baunman, que dando o braço a torcer, nos diz que o amor é líquido, e talvez seja.

sábado, 18 de julho de 2009

HARRY POTTER E O IMPÉRIO CONTRA-ATACA.



Creio que já comparei Senhor dos anéis com Guerra nas estrelas no passado, e possivelmente é uma das mais puras verdades para as novas gerações, nunca um filme foi tão visto, comentado e esperado – Na verdade George Lucas leu o livro de Tolkien, então se alguém foi influenciado, não foi Peter Jackson – mas concomitantemente no mesmo ano Harry Potter ganhava as telas, com a mesma magia e apelo que a produção australiana.
O resultado divertiu platéias inteiras e arremessou o livro de J.K.Rowling as alturas também, em um momento em que ele não via como chegar mais longe, um ano depois Câmara Secreta mostrava uma franquia na qual poderíamos ver o tom e ritmo de todos os filmes até o final, a Warner não concordou com isso e desde o terceiro filme de Alfonso Cuaron (outro diretor, o primeiro e segundo era Chris Columbus), vemos filmes mais interessantes, sombrios e que mudam a perspectiva a cada filme. Esta semana chegou o mais novo exemplar “Enigma do príncipe” lotando mais cinemas,e batendo de frente com o melhor filme, na minha opinião, que é o terceiro exemplar.
Isso ocorre porque a história de Rowling foi adensando e porque os diretores criam um trabalho bem autoral para o bem e para o mal. David Yates no caso, diretor do quinto filme, fez um grande trabalho ao condensar o livro mais grande e chato em um filme interessante, que é o mais fraco, porque a história em si de Ordem da Fênix é a mais fraca da série de livros (Sério ela poderia não existir e ninguém sentiria falta). Agora seu estilo de direção cai como uma luva no capítulo mais depressivo de Harry Potter, e quando falo em marca autoral, estou dizendo que o que mais impressionou foi o fato de, em um filme blockbuster de verão, ele ter criado um trabalho que quase não tem ação e enfatiza os silêncios dos personagens.
Harry neste capítulo tem que descobrir o segredo por trás do poder de Voldemort, nas lembranças de Alvo Dumbledore, o professor da escola e nos segredos de Horácio Gruge, o novo professor de poções. Lógico que o atrativo dos últimos filmes foi e é, as confusões, paixonites e conflitos adolescentes dos personagens principais que, em todo caso, são crianças no meio de uma guerra. Hermione com ciúmes de Rony, Harry flertando com meninas (é mesmo, não estou brincando) constituem um dos núcleos do filme, que é o das piadas leves que o tornam divertido, outro núcleo do iminente mal que se aproxima é a parte sombria, belamente fotografada com Michael Gambom e Jim Broadbent tornando o caminho mais misterioso. Nisso ele fez duas coisas distintas, trabalhou os atores para que produzissem a melhor atuação até o momento, uma vez que em muitas cenas eles nem falam, só a imagem que transmitem já é o suficiente para entender o pesar de suas ações. E um outro ponto, é como o filme é down, no livro há uma grande cena de batalha no final que mobiliza toda Hogwarts e isso não nem acontece no filme, um recurso que seria utilizado para tornar o final do filme muito mais acessível para o grande público e esperançoso foi completamente descartado. Na verdade a sensação de assistir Harry potter e O Enigma do príncipe é uma sensação arrasante o que me traz a memória o segundo (ou quinto?) capítulo de Guerra nas Estrelas, uma desesperança completa em como aquilo irá acabar. Infelizmente eu já sei o final, para aqueles que só acompanham na tela grande deve ser muito mais destrutivo, mas tenham esperança as relíquias vem aí.

SYNGUÉ SABOUR - PEDRA-DE-PACIÊNCIA, Atiq Rahimi



Atiq Rahimi é o autor afegão mais prestigiado no momento por excelência, desde a reentrada do mundo afegão dentro do panorama mundial suas atingem uma força que cresce exponencialmente. Aqui no Brasil seu livro mais lembrado é o primeiro, Terra e Cinzas, e seu recente livro foi publicado este mês e ganhou ano passado o prêmio Gougort na França.
Longe de se concentrar nos aspectos políticos e sociais do Afeganistão este livro concentra-se na exploração da mulher dentro da sociedade não só afegã, mas do panorama muçulmano como um todo.
A Pedra-de-paciência, Syngué Sabour, é um lenda narrada pela nossa narradora de uma pedra mágica deixada nos anos de Criação no qual poderia se deixar todos os pecados e confissões nela e quando esta se enchesse explodiria anunciando o fim do mundo. No caso, a pedra constitui uma metáfora da situação em que vive, com o marido em coma, imóvel e semi-morto como fardo que ela tem que carregar, a um primeiro momento ela faz o papel de fiel esposa a risca, rezando todo o dia ao lado de sua cama o que torna o começo do romance até um pouco lento, mas logo mais ela começa em seu fluxo de consciência a largar todas as crenças espirituais e amores que sentia para rever a vida, confessando tudo ao corpo inerte como se fosse uma pedra.
Sua casa está situada no meio da guerra civil, uma vizinhança anda louca pelas ruas cantando e falando e ainda tem duas crianças que a todo momento reclamam sua condição de crianças como fardo a mais.
Suas revelações sobre o casamento forçado, a vida conjugal e todos os conflitos que se estabelecem com os soldados que rondam sua casa tornam o livro bem pesado mas muito interessante, deixando um clima para o final, a explosão da pedra, belamente descrita com a genialidade que só os grandes escritores tem. Não sei se essa será sua obra definitiva, creio que não, mas vale a pena conferir pela intensidade da história.

domingo, 12 de julho de 2009

SELINHOS.


É Sempre bom ganhar selos e este aqui nos foi doado pela Bones do http:\\bones-cinema-tv.blogspot.com, ao qual agradecemos muito.
Repasso o selo ara o blog http:\\extremamentealto.blospot.com, ao qual convido a todos para lerem também.
Um abraço

sexta-feira, 10 de julho de 2009

FLIP 2009: 3°, 4° E 5° DIAS. ESCREVER EM PARATY ERA LOUCURA

E seria mesmo, não tinha tempo para coçar uma pulga, o primeiro texto saiu em 5 minutos do resto da minha janta, e nunca mais... enfim, descansado (dormi 21 horas em dois dias para repor os dia não dormidos direito), alegre e feliz, vamos fazer um balanço: 3° dia nublado em sem graça foi aquecendo em velocidade crescente, a começar a Mesa 6, era a velha mesa de poesia que já é tradicional: Angelica Freitas, Heitor Ferraz e Eucanaã Ferraz não conseguiram atrair mais adeptos para a velha arte, mas satisfazeram os amantes tradicionais. Edna O'Brien, não conseguiu atrair muitas atenções, talvez por que sua obra mais emblemática e polêmica nunca fora traduzida (Country Girls). A Mesa 8 foi de Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho, e foi uma discussão interessante quando focada na repressões afegãs enfrentadas pelo primeiro que alias é muito simpático. A Mesa 9 teve o estranho Bellatin e suas próteses estranhas comentando a fragmentação de sua escrita, com a bola da vez Cristovão Tezza e ainda houve distribuição do primeiro capítulo do novo livro deste que só será lançado em 2010. Fazer propaganda é bom e quando Milton Hatoum e Chico Buarque entraram em campo para encerrar o dia, a mulherada foi as alturas e poluição sonora bateu recordes em Paraty.
4° dia – o Mais interessante de longe começou com Alex Ross, comentando a música do Século XX . Depois entre tapas e beijos Sophie Calle e Gregoire Bouiller roubaram a cidade para si ao expor sua relação conturbada com direito a vinhos escondidos por anos e cartas de rompimento sendo enviada para animais, no final fizeram as pazes e a mulherada caiu no teatrinho dizendo “Ele não é tão mal”. Anne Enright e James Salter foram duas agradáveis surpresa. A entrevista com Gay Talese levou a rumos inesperados e e comentários biográficos que podem ter deixado o pai new journalism constrangido. Lobo Antunes foi o segundo furacão a passar pela zona litorânea e apesar de ter autografado mais que o Chico foi mais frio com o público.
5° dia – Foi fim de festa Catherine Millet não é tão polêmica quanto a propaganda que se faz em torno de sua obra, Simon Schama fez uma mesa simpática antes dela mas a única coisa que me vem na cabeça são suas imagens na festa da noite passada, contudo “o que acontece em Paraty fica em Paraty” e não vou expor o jornalista inglês. Edson Nery da Fonseca e Zuenir Ventura fizeram a mesa mais voltada para os estudos bandeirianos já no fim de festa, mas foi a Flip mais interessante e com mais atividades para o grande público. Depois eu desmontei uma livraria pela madrugada e fui dar uma de Simon Schama na festa dos Flippeiros. Ops escapou.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

FLIP 2009 - 1º E 2º DIA e Nietzsche olhou para cima (ou para ti) e sorriu

Estou em Paraty a negócios e usufruindo de ver a Flip em primeira mão (soa mais como um eco, uma vez que não vejo quase nada mas... é divertido), por isso não escrevo nada a tempos...enfim, ontem começou a Festa Literária internacional e apesar de um dia bem normal, apesar dos muitos turistas na cidade, tivemos um grande show da Adriana Calcanhoto que mobilizou a cidade para heavy metal. Doce e Linda ela esgoelou até quase meia-noite.
Neste segundo dia que vos escrevo, a primaira mesa foi uma conversa sobre quadrinhos copm quatro proeminentes escritores (Raphael Grampa, Rafael Coutinho, Fabio Moon e Gabriel Bá) que incrivelemente atrairam um público considerável para o mundo da nona arte.
A segunda mesa, decepcionante em termos de pessoas, tinha Domingos de Oliveira que, deu um cano nos autográfos para ira do úblico, e um simpático Rodrigo Lacerda que está lançando seu livro agora. A terceira foi algo em relação ao jornalismo literatura, interessangte e quarta trouxe os autores internacionais Ma Jian e Xinran dioscutindo a China para os ocidentais.
Nada muito diferente ou excitante até a última mersa que acabou a pouco, a do polêmico geneticista Richard Dawkins, defendendo seu ateísmo fanático, incendeou a vila fluminense para delírio de vário devotos e lógico que nessa dia aconteceu algo que eu nunca vi: Chveu. Sabendo como a ira divina é caracterizada estou preocupado.
Mas Paraty se prepara para outra onde de calor que chega amanhã com o "homem dos olhos", sua sombra já aparece sobre nós, seu livro já vendeu mais de 100 exemplares e ele nem chegou a cidade!

domingo, 21 de junho de 2009

OUTRA VIDA, Rodrigo Lacerda



Um casal espera as 7:15 em rodoviária, o horário de partida de um ônibus que vai levá-los a uma outra vida longe dos prolemas da capital, mas não estamos diante de um romance de evasão e sim dos momentos que precedem essa evasão tão buscada, principalmente, por nós paulistanos, e como a estrutura promete não vamos sair desse terminal até o final do romance. E é o quase que predomina e é o quase que falta para ele se tornar inesquecível.
Se fossemos classificar estaríamos diante daquela literatura que vai se concentrar em um momento só para destrinchar questões fundamentais, no caso são as duas horas que vão anteceder a partida do casal. Por que eles estão fugindo? Pra onde vão? São as duas questões que podem assombrar no primeiro capítulo, mas logo na orelha ou no segundo capítulo já sabemos que ele é um executivo corrupto e que estão indo para o interior depois de um escândalo, mais especificamente para a casa da sogra. A mulher não quer ir pois criou uma vida na capital, a filha é muito inocente em suas 5 primaveras e ama demais o pai. Essas pequenas tensões vão se acumulando para explodir principalmente pois há um amante na história para apimentar esse romance, que é quase que uma análise naturalista da vida conjugal. O que Rodrigo Lacerda faz brilhantemente ao que se propõem, mas que ainda assim, deixa no ar que poderia ser amis interessante.
Em primeiro lugar, porque temos um ótimo primeiro personagem, o marido, que é corrupto, e por incrível que pareça NÃO TEMOS personagens corruptos interessantes na nossa literatura tupiniquim. Esse fato poderia render algo mais interessante que uma briga conjugal, mas vai ficar adormecido, sendo que em um plano mais geral ele meio que vai se eximir até o final do romance.
Depois a tensão explode e já se encaminha numa resolução, o que poderia se transformar em um épico se resume a um romance bem quadradinho.
A melhor parte do romance está em demonstrar como um pai pode ser o elemento de união, que realmente ama a filha. Ao contrário da mãe, como tal se apresenta, pode ser o elemento que desestrutura a família, pode não amar a filha e pode querer uma independência que não segue os padrões modernos. A mãe, que na atualidade, é o elemento de união e que representa a família, mas em Outra vida é colocada de lado, o que provoca uma inversão moral interessante mas que também fica no quase. Bem conduzido, com um lirismo coloquial muito bonito que aponta para um autor novo brasileiro que deve ser acompanhado de perto, mas que demonstra que seu melhor ainda está por vir, e alias, estará na Flip deste ano que ocorre dia 1 a 5 de julho. Vejo-os lá.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

INDIGNAÇÃO, Phillip Roth


Estou indignado, não pelos mesmos motivos que afligem o protagonista deste romance, mas pelo fato do mesmo ser um completo idiota e não perceber isso nem tendo a eternidade para rememorar sua trágica história de 19 primaveras.
Tenho um grave problema com Phillip Roth, até o momento podendo ser ilustrado pelo dito popular do oito-oitenta. O Homem Comum foi depressivamente chato, quase caí de sono na página 40 de 120, em compensação o Fantasma saí de Cena foi um dos livros mais originais do ano passado, combinava o tom melancólico que sua escrita simples parece sempre conter, com uma análise dos demônios que assolam o país do Tio Sam recentemente, e até onde li o Complexo de Portnoy, ele era engraçado, mas não terminei por motivos que estão além de minha pessoa. Isso faz que você ao mesmo tempo fique ansioso com um novo livro, ao mesmo que apreensivo pois não sabe extaamente sobre o que vai ler. Nesse caso foi muito mais próximo do Homem Comum.
Meu problema não é com o nível técnico do escritor norte-americano, mas o nível de melancolia que ele expressa é um prato cheio para os seus fãs, mas para mim é uma ânsia tal qual a de Marcus Messner.
Aqui temos um personagem adolescente prestes que entra em uma faculdade para fugir do pai, que acha que ele está correndo perigo de vida até por atravessar a rua, completamente louco, louquíssimo para que o filho morra ou para que algo aconteça, um tonto completo, mas ele é só um coadjuvante, nosso protagonista é a sombra de uma medo crescente também, mas um medo proveniente de uma possibilidade de socialização. Na faculdade ele quer ser deixado em paz, não quer amigos, rejeita a tradição, não se junta a nenhuma fraternidade, desconfia quando uma menina se interessa por ele e despreza o diretor de uma faculdade católica, e alias, ele é ateu! Só saliento a contradição de um ateu entrar em um orgão cristão e se irritar por fazerem rituais cristãos.
A chave para entendê-lo está no diretor que resolve o quebra cabeça que é Marcus Messner, não e um quebra cabela difícil, e apesar de não precisar de uma explicação tão didática ele a fornece: Marcus sempre que vê algum desafio na vida, ou alguém que não partilhe de sua opinião foge, se esconde ou ignora, mas não tenta compreender, ou respeitar ele se põem em um nível tão alto que acha que todos são cegos, ao ser confrontado com esse disparate, faz aquilo que sabe melhor, se indigna a ponto de vomitar na sala do diretor.
Sucumbe aos pedidos da mãe, que é judia, com uma facilidade que só salienta sua falta de maturidade. Se apaixona por uma, mais pela possibilidade sexual do que por ela mesma (sério, é uma personagem plana, ele não a entende de maneira alguma, repete para si mesmo que suas atitudes são devido ao fato de ter pais separados?!) e se desapaixona porque descobrir que ela tentou se matar, posso continuar descrevendo as desventuras por horas, mas eu me irritaria.
Tenho certeza que é uma questão de gosto, seu final é um movimento natural afinal ele é um autor-defunto, e não deixa de ser engraçado pois eu já estava querendo matar o personagem! A orelha do livro diz que é um romance sobre amadurecimento, mas eu digo o contrário é um livro sobre a impossibilidade de amadurecimento e vale uma leitura, contudo vá preparado. Se você é fã, vai adorar!

terça-feira, 9 de junho de 2009

RETALHOS, Craig Thompson



Poderia um quadrinho ser complexo o suficiente e emocionante o bastante, para ficar na memória tempo bastante para atrair até aqueles que não gostam do gênero? Sim atualmente isso é muito fácil! Principalmente com programas que resolveram ver as burradas da nossa Secretaria de Educação e apresentar uma obra por programa, dito jornalístico, que não deveria ser adequada para o público ao qual ela foi destinada pelo governo.
É a hora da digressão, e eu nem cheguei no assunto principal: mandar o Dez na área, um quadrinho adulto de sátira de futebol para a 2ª série/ 3° ano é burrice! Os jornais começarem caça as bruxas é esperado, tanto quanto quando eles fazem merda. Triste fim do Pequeno menino ostra, é um livro de poesia lindo, para o público juvenil, principalmente por que é do Tim Burton e tem aquele apego e tudo mais.... mas, tudo bem! é bom discutir o que faz bem para a escola e o que não faz! Agora sentar o pau em Um contrato para Deus, é asneira!!! é forte sim! é para o público adolescente? Pode ser, eu acho que não .Tem que ter na escola? TEM! Esse é marco histórico da Hq's como querem recolher das escolas e formar acervo de qualidade? É tirar os livros do Zola, por que tem descrições naturalistas de sexo! Alias Capitães da Areia é mais forte que o Dez na área e se tem que ler no ensino fundamental.
Em todo caso, o que os jornais fazem é um preconceito enorme com os quadrinhos e é bom porque assim haverá mais discussão e mais gente vai se interessar!
Mas venho por meio desta falar deste quadrinho ao lado, lançado mês passado aqui no Brasil, é uma das melhores obras em quadrinhos que eu li nos últimos anos, tem uma sensibilidade incrível, e é muito bem desenhada. Autobiográfica ela nos conta a história de Criag no momento de decisão de sua vida: Sair do colégio e ir para o seminário, ou seguir a vocação de desenhista indo contra as opiniões da vizinhança que querem ele se torne padre. Nesse momento a repressão religiosa é muito grande, seu medo de pecar é intenso e sua vida não tem nenhuma graça a não ser se comportar e esperar que a vida se decida por si só. Até que acontece aquilo que aquece os corações e reanima a alma: O amor. Ele se apaixona por uma menina no acampamento religioso e tudo o que acreditava vai ser posto em cheque quando ele for passar quatro semanas na casa dessa “amiga”, que tem os pais em processo de divórcio e dois irmãos adotivos com Sindrome de Down, seu único momento de paz é quando está com Craig, dormindo junto em um cobertor de retalhos que ela fez para ele. Em meio a isso a lembrança do irmão menor sempre volta a sua cabeça, como ele dividia um cobertor e a cama com ele quando era pequeno, como os pais infligiam maldades aos dois e como ele mesmo não foi um bom irmão. Tocante é o mínimo que posso dizer, a maneira como ele vai mudando de pensamento durante o inverno é brilhantemente ilustrada em seus momentos finais e o melhor é que isso é só um momento, o amor que ele sente agora não vai continuar a não ser a lembranças que a colcha lhe traz, também são as lembranças que unem os irmãos já quando adultos.
Merece ser lido por todos que gostam de pensar, e deveria ser adotado nas escolas como grande obra da nona arte, mas não vai, pois tem uma cena de nudez e os valores não são os mesmo que o Estado quer passar adiante. Uma pena.

Ang Lee Procurado Vivo ou Morto!


Nunca o conheci pessoalmente, mas na televisão ele parece ser menor que eu, e olha que eu sou um tampinha! Como um sujeito tão simpático e pequeno pode deixar tanta gente enfurecida? Vamos ver quem quer a cabeça de Ang Lee: O pessoal de Taiwan, que reclama até hoje que os atores de O Tigre e o Dragão não falam uma palavra com o sotaque certo, e Ridley Scott por ter tirado o Oscar pelo mesmo filme, e essa era última chance do coitado. O pessoal dos quadrinhos, mais especificamente os fãs do Gigante de Verde o querem estripado em via pública de pois de 140 minutos de filme para falar “what a fucky is that”, com o Hulk, atualmente todos os da velha guarda do Western que viram o herói machão morrer, alguns desavizados que foram ao cinema pensando “Oba Filme de caubói!” e alguns neo-nazista pelo Brokeback. A mais nova destruição do baixinho chega aos cinemas brasileiros com 2 anos de atraso por causa da censura, fez Joan Chen, atriz do filme, ser exilada da China, e fez este país pequeninho querer a cabeça de Ang Lee e tirar o filme das salas de exibição.. ah, sim ele ganhou o Leão de Prata de melhor de diretor por esse filme, mas é só um detalhe.
A história é bem simples Joan Chen interpreta uma menina que assim que saí do colegial, faz que todo chinês da década de 40 faz se junta com o amigos e saí para matar os traidores do país, lógico que ele é extremamente motivada pelo amigo bonitinho que ela está apaixonada e é uma anta. Seu plano é seduzir o oficial interpretado por um Tom Leung inspirado e matar ele na hora oportuna, lógico que tudo dá errado e ela foge, três anos depois o amigo dela reaparece a convidando para reintegrar a missão, agora com toda milícia de resistência para ajudá-la, ela como já se sentia atraída pela figura misteriosa de Tom Leung vai em frente e jogo se torna cada vez mais perigoso uma vez que ela começa a se apaixonar pelo vilão e a missão vai se tornando impossível.
Estruturalmente bem construído é uma trama ótima que mantém os dois lados da moeda irando sincronicamente o desejo amoroso da relação impossível, e o perigo de ser descoberto. Por que o filme é um escândalo então? Por que Ang Lee não dá ponto sem nó, então não estamos falando de amor simples e platônico e sim de desejo sexual fervoroso que se concretiza em três cenas que fazem os diretores da pornochanchada se encolherem na cadeira e ele ainda tem a pachorra de chegar em rede e dizer que não gosta de dirigir essas cenas, fica encabulado e nunca sabe o que fazer...SEI! E o pior é que elas tem tudo a ver com o filme, é um misto de violência e erotismo que chega a ser incomodante, e mostra toda a complexidade da relação adúltera que está na tela.
Joan Chen está ótima, e por isso ela foi deportada, ela é linda e rouba o filme, tem uma inocência que a faria passar por uma colegial normal e uma explosão nas cenas em que não suporta mais a relação que assusta, destaque para quando ela encontra o líder da resistência.
Tom Leung, é a espinha dorsal do longa, sua atuação remete o mistério que fica em nossas cabeças durante a projeção, será que ele é tão mal quanto dizem? Não há um ser humano atrás dessa frieza toda? Sua violência e os poucos momentos sentimentais garantem o bom andamento da fita, e no final vamos chegar a uma conclusão sobre este personagem e que é a última cena do filme e é por isso que Ang Lee é um ótimo diretor, alias o final não vai satisfazer a todos mas pela audácia do baixinho este não é um filme para todos e que tragam a cabeça de Ang Lee