quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FITA BRANCA, Michael Haneke

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Uma das coisas mais tristes ao sair do cinema é ficar decepcionado com aquilo de que você esperava muito. Não me divirto nem um pouco quando tenho que vir a público e dizer que é um droga, ou que poderia ser melhor. Não é caso aqui, mas eu quero ilustrar que eu me divirto imensamente quando eu posso criticar nossa talentosíssima indústria de produção e distribuição brasileira. Vamos primeiro ao causo e depois a crítica.

Eis que minha pessoa sai ávida do serviço para ver o filminho em questão em um cinema lá na Vl. Madalena, quase que a sessão começa sem mim, mas eu chego a tempo de uma pequena exaltação de ânimos, digamos, na bilheteria. A razão meu olho já localiza. O aviso que está grudado na bilheteria informa “que o filme tem legendas brancas e é em preto-e-branco, o que pode vir a tornar difícil a leitura”. Lógico que se seu alemão estiver em dia você não notara, considerando que não sei nem pronunciar “danken” corretamente, meu comentário foi “ouch” com a esperança de que não tinham feito essa caquinha com o filme alemão mais importante do ano passado. A esperança é um característica exclusivamente humana, para o pessoal do Cine da Vila ter tido de colocar um aviso prévio eu  não devia nem ter pensado essa besteira. Vamos dizer que eles foram bonzinhos com a situação, pois em certos pontos de paisagem com neve ou do trigo aos raios de sol, imagens de uma beleza sublime, o narrador contando a história, e você apertando os olhos para distinguir branco no branco, o que  é mais uma prova da perseverança humana contra todas adversidades e são grandes narrações que ligam a história.  Os risos irônicos no cinema perante a situação pululavam enquanto você adimirava a fotografia do filme.

No fundo posso dizer que parece não ter me prejudicado, graças a um esforço de minha retina, alguma palavra ou outra que parece com inglês e ir pescando quando tinha um pouquinho de preto no meio. Essas técnicas me salvaram para entender a história, entretanto bota barbeiragem nisso! Não notaram que algumas partes são IMPOSSÍVEIS DE LER! Posso estar falando bobagem pois não sei nada da técnica de projeção, mas creio que se nós fomos a Lua, construímos as Pirâmides, criamos Lost e atravessamos todo dia São Paulo, dá para colocar uma legenda com cor ou algo do tipo. Certo?

A Fita Branca é o novo filme de Michael Haneke, o mesmo de Violência Gratuita, o que já nos diz que é um filme tenso. O filme ganhou os principais prêmios internacionais do qual participou (Globo de Ouro e Cannes) e só não digo que é o favorito ao Oscar de estrangeiro, pois ali é loteria, não tem lógica. A história se centra em acontecimentos estranhos em uma vila da Alemanha pré-guerra. Os acontecimentos que estarrecem a população local são crimes cometidos contra crianças durante o ano pré-Primeira Guerra. Do cavalo que tropeça em aram,e ao final do filme vemos uma galeria de personagens envolvidos em diferentes graus com a violência que contribuem para uma reflexão geral do filme. Temos uma família de cristãos, o pai um pastor que governa a família com punho de ferro e suas duas crianças Klara e Martin, em fase de adolescência, ou seja, em fase de rebeldia contra a ordem da casa. Ao redor dessas crianças circulam outras do colégio em uma espécie de clubinho, que coloca um tom macabro em suas aparições. Temos o Barão com o casamento ameaçado com a Baronesa. Eles simbolizam a aristocracia do vilarejo em franca decadência. Uma família de pobres proletários que são os primeiros a sofrer as consequência dos crimes. Há ainda a família médico, a filha que pode estar sendo abusada sexualmente, o filho menor, sua babá que é sua amante ocasional e  tem um filho com Síndrome de Down. O personagem principal é o professor do colégio da vila que assiste ao desenrolar dos acontecimentos nos narrando a história e ao mesmo tempo narra sua própria história de amor com a primeira babá do Barão.

Com tantos personagens estamos quase em um filme de Altman, e apesar de não se resolver o mistério ao final dos créditos de maneira usual com culpados e bandidos, temos uma impressão muito forte que as crianças do vilarejo estão envolvidas nos crimes . Não há muito espaço para se pensar em qual é a mensagem desse filme, ela é explícita quando se olha o todo. Como ele é narrado por um personagem, este filme nos dá uma visão dele sobre os acontecimentos e ele tem a hipótese que fica na cabela do espectador desde o primeiro frame, esta sempre contida em sua narração  “pode servir para elucidar muita coisa que ocorreu depois na história deste país”, e logo depois ele vem com uma outra resolução “pois eu deveria ter desconfiado da atitude estranha daquelas crianças naquela época”. Por si só este já é o ponto central do filme, toda a salada que eu descrevi serve em primeiro lugar para tirar o foco desta ideia que ele vai defender com toda força no final e depois para aumentar o grau de significação da história no ponto que a violência contra crianças é odiosa, mas temos com as demais histórias um grau a mais de violência entre a sociedade humana. Ninguém é inocente no filme. Há uma crítica a religião pesada, escondida nas entrelinhas, como se fossem os principais culpados e sobretudo ao véu de ignorância que colocamos nos rostos, fechar os olhos perante a monstruosidade e usar uma máscara em forma de fita branca para esconder os demônios de nossa selvageria. a fita branca é um disfarce que a sociedade cria para esconder e com o tempo ela se transforma com uma fita vermelha com a suástica no centro. Tudo que o filme mostra é uma alegoria do que estaria por vir, a obra de Haneke mostra que nós buscamos tudo aquilo que aconteceu em nossa sociedade ocidental, que nós buscamos todo o mal nos aflige e nesse filme ele foi ao limite desse pensamento e o mais incrível e´que é sua obra mais sutil, mais aberta, mas ao mesmo tempo fechada para outras interpretações.

Um dos grandes filmes do ano sem dúvida, mas seria melhor se a legenda fosse amarela, mas isso não culpa do Haneke.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

UM OLHAR DO PARAÍSO, de Peter Jackson

 

um olhar do paraiso Se você achou que após o mundo azul de James Cameron nada mais poderia te encantar na tela grande, o diretor mais visualmente impactante dos últimos anos não poderia deixar esta briga ser vencida tão facilmente por Cameron e fez do mundo colorido de Um Olhar do Paraiso uma outra experiência visual que o transporta em todos os sentidos para o drama de Susan Salmon, uma menina cruelmente assassinada na década de 70 presa entre sua vontade de voltar para casa e a passagem natural a um outro plano. Longe de ser o primeiro filme espírita do mundo, Um Olhar do Paraíso faz o que Peter Jackson mais se habituou a fazer, criar emoções a partir da fantasia.

A tarefa é quase uma loucura cinematográfica que vai deixar muita gente insatisfeita,  pois ele vai tentar combinar dois pontos muito distantes entre si. De lado a história é de um crime hediondo executado a sangue frio e muito próximo da realidade, e no outro lado a criação de um mundo de aquarela que simboliza o paraíso de Susan, belo em todos os sentidos e trágico ao mesmo tempo. Esse contraste é conduzido com um pulso firme, apesar de não funcionar todas as vezes não chega a prejudicar o andamento do filme. Susan (Saoirse Ronan, a menininha chata de Desejo e Reparação no caminho para ser um a grande atriz) é uma menina comum que adora tirar fotos e sonhar com rapazes, um belo dia voltando para casa encontra o vizinho Sr. Harvey (ótimo Stanley Tucci) que a assassina de forma brutal. A Partir daí ela vive em seu paraíso observando a vida de seus pais (Mark Wahlberg e Rachel Wiesz discretos) em meio a dor e o assassino já pensando em sua próxima vítima.

O filme tem partes tensas, contudo não espere cenas fortes como em a Troca, ou uma violência explícita, Jackson cria mais tensão com o andamento que dá ao personagem de Tucci, um assassino sangue frio revelado desde o primeiro minuto do filme, metódico e impenetrável. Ele passa o tempo rememorando os seus assassinatos, não tem um pingo de remorso ou de qualquer psique que demonstre o porquê de suas ações, ele é um psicopata tão distante do expectador que é assustador! Saoirse é o outro ponto forte do filme, muito mais encantadora do que sua última personagem em tela grande, consegue dar vida ao mundo imaginário de Jackson, que por si só é um show a parte. A história começa a tomar uma outra linha quando o pai de Susan começa a investigar por si só o assassinato da filha e devo dizer que um dos melhores atrativos é que a história vai tomar rumos que não são tão óbvios com o decorrer da projeção até seu final em narração que dá um sentido final a toda a viagem de Susan. Belo e trágico ao mesmo tempo, porém quase se incinera também no final.

Me parece (é só um palpite) que a produção, apesar de Peter Jackson estar no meio, ter  tentado aos 45 do segundo tempo mudar um pouco o final do filme para algo mais tradicional, e eis que no meio da narração final de Susan nos aparece um cena que não tem nada a ver com filme até o momento, quase um ato desesperado de tornar o filme mais acessível ao público e totalmente desnecessário e do ponto de vista artístico, uma barbeiragem total. Não é nada que destrua o filme, mas você sai com a noção de que não precisava ter visto aquilo. E eu convido vocês a verem o filme, e porque eu não quero dar nenhum spoiler, me digam se localizaram e se concordam comigo, enfim… continuando não é o melhor filme de 2010, mas é mais um trabalho competente do hobbit mais imaginativo da Terramédia, vale a pena o ingresso.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Amor sem Escalas, Jason Reitman

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E a tradução brasileira faz mais uma vítima, lógico que a intenção é fazer o filme vender mais, contudo imagino as menininhas apaixonadas que veem um cartaz de um filme com Amor no cartaz correrem para dentro da sala de exibição e ficarem chocadas com o triste filme de Jason Reitman, em que happly ever é um conto de fadas.

Amor sem escalas é um filme sobre muitas coisas mas com toda a certeza não é sobre amor. Até a mais apaixonada personagem sucumbe a realidade do mundo ao levar um pé na bunda via torpedo. Up in the air, seria traduzido como Sem chão, Nas nuvens, Pairando no céu, muitas opções mas nenhuma que tenha Amor no título, pois é sacanagem vender o filme desta forma.

Ryan (George Clooney em interpretação sutilmente eficaz) é um funcionário de  um singular empresa que demite as pessoas no lugar dos chefes. Não entendeu? Bem simples. Um belo dia aquele funcionário de 20 anos de empresa precisa ser despedido e como o chefe não tem coragem, surge  Ryan que vem com toda a sua lábia demitir o coitado e lidar com qualquer reação que esta tenha. Estranho? Bastante, não pesquisei para saber se uma empresa deste tipo existe, mas eu creio que exista quase tudo no mundo. A grande sacada desta história é ver como ela se encaixa na atual situação americana, com demissões em massa e muitos desempregados. Em dado momento o chefe de Ryan comenta a respeito e informa “Este é o nosso momento!” frase que escancara a crítica e dá o tom de um filme em que permeia um humor negro muito sutil vindo principalmente os monólogos interiores de Ryan.

Ryan é um personagem que detesta os laços humanos, odeia ficar em casa (no último anos ele passou 43 dias em casa e odiou) e passa maior parte da vida sobrevoando os Estados Unidos e demitindo pessoas por outros. Sua grande paixão, aquilo que o deixa bem, é ficar dentro de um avião ou de um hotel. Em uma dessas viagens ele conhece uma pessoa como ele, Alex (Vera Farminga), ao qual mantém uma espécie de relacionamento casual que irá crescer durante o filme.

A outra mulher que vai intervir na vida de Ryan é  Natalia (Anna Kendrick) ao quem ele precisa treinar no serviço. Essa personagem tem um plano revolucionário para a empresa que é cortar as viagens dos funcionários, com meio de cortar despesas. Para isso as demissões agora serão feitas por videoconferência! Além de receber a notícia de que depois de todos esses anos seus serviços não são mais necessários, a pessoa verá isso por meio de um computador, nem mesmo uma pessoa virá informá-lo. Toda essa trama vai culminar em todas as suas ramificações para criar um mundo em que a impessoalidade é total.  Um mundo muito próximo do nosso e por isso, e principalmente por seu final, é que este filme está sendo ovacionado, merecidamente, diga-se de passagem. Ele pega todas as regras de uma comédia romântica, cria uma história tão agradável, em que as coisas podem dar bem para jogar seu espectador no limbo da depressão.

Possivelmente é um dos filmes mais tristes que já vi no cinema, muito um função da interpreta ção de George Clooney e pessoalmente pois sinto que muitos de nós estamos caminhando par virar um eventual Ryan e o que fica bem claro é que certas coisas, decisões ou fatos da vida, não tem volta. Talvez o mais aterrorizante seja ver em sua palestra sobre se desapegar das coisas da vida (tanto materiais como humanas) para poder viver, e você secretamente concordar com essa visão de mundo pois ele é muito bem escrito para evocar a emoção certa na hora certa, por isso também que seu final é tão destrutivo. Vão assistir pois é um filme que reflete o agora, com ótimas atuações e um roteiro esperto, mas fica o aviso para os mais sensíveis não há nada de Amor no filme.

Moedeiros Falsos, André Gide

 

Moedeiros falsos_2.indd Quando li Os subterrâneos do Vaticano, fora porque eu tinha ouvido falar bem do livro em minhas excursões pelas várias listas de melhores livros do mundo, e também porque em uma de minhas habituais idas a sebo no começo do ano eu tinha achado uma edição de 1971 à preço de banana, o que era um sinal divino para a aquisição e leitura. Creio desde essa época eu não vejo uma edição de qualquer livro de Gide nas nossas livrarias, muito menos nos sebos. Agora na passagem de ano, uma das melhores editoras nacionais de literatura resolveu republicar a obra de Gide em traduções nacionais lançando quatro títulos de uma vez incluindo o já citado com nova tradução, Os Porões do Vaticano.

Os Moedeiros falsos é sua obra mais importante no âmbito do panorama mundial. é romance sobre a construção do romance e também sua primeira obra que mexe com o homoerotismo explicitamente, tema que será recorrente na década 20 e tem como ápice o livro Corydon, um tratado em prol da liberdade sexual.

Moedeiros acompanha vários personagens pela ruas de uma Paris do começo do século, todas elas transitam pela arte e pelos relacionamentos humanos. Os fios condutores são Bernard, um menino que se descobriu bastardo e fugiu de casa para vencer na vida sozinho. O amigo deste, Olivier, um menino a qual todos reconhecem ter um grande talento para artes e será disputado no decorrer do romance por todos os personagens, e tio de Olivier, Edouard, um escritor famoso de meia idade que tem uma paixão platônica e sonha em escrever um  romance de ideias, Os moedeiros falsos, assim com Velásquez pinta a si mesmo no quadro das garotinhas ou Charlie Kaufman, explica o processo de construção de um roteiro no fantástico Adaptação, a grande sacada deste romance é esse espelho que faz com a obra que está lendo, sendo que o personagem principal é Edouard, reflexo claro de Gide.  Edouard quer escrever um romance sobre a vida, totalmente real, mas que não tenha uma história propriamente dita, em parte é a estrutura do romance visto que em dado momento há tantas coisas acontecendo que você não sabe mais qual é o fio narrativo principal, contudo o livro não é completamente solto de um estrutura sendo que as histórias que o iniciam tem um final, outras desaparecem no interior da narrativa. O capítulo principal para que isso aconteça é o final da segunda parte em que o narrador comenta cada um dos personagens que criou, como se estivesse impotente para modificar seus atos, e outros ele resolve não falar mais na terceira parte como é o caso de Lilian.

Dentro da sub-histórias, temos um homem querendo reencontrar o neto. Este sendo uma criança fechada e tem uma relacionamento bonito com uma outra menina. Um escritor vaidoso que todos odeiam, a paixão de Edouard estando grávida de um adultério, o irmão mais velho de Olivier como conquistador barato, e o mais novo se encarregando ao final do livro de dar um sentido ao título sendo que ele põem em circulação moedas falsas na cidade. É um livro de difícil classificação visto que flerta com todos os gêneros, e ao mesmo tempo não pertence a nenhum, de uma habilidade narrativa extrema e de um final perturbador que de tão sombrio sua significação, pessoalmente, me remete ao lado negro da vida que é velado em várias histórias. No todo o livro constitui um panorama sobre a vida dos indivíduos na cidade  e na incapacidade da arte de conseguir retratar de maneira real os fatos da vida. Edouard diz que não usara a tragédia que se abate aos personagens no final do romance, por questões morais e pessoais, mas já está lá descrito pelo narrador, as limitações que Edouard põem ou quer colocar em sua obra é aquilo que impede de escrever e sobre as diversas fases da escrita do romance este livro é um primor da metalingüística. Vale a leitura, um clássico sempre vale.

sábado, 23 de janeiro de 2010

DEIXA ELA ENTRAR, Tomas Alfredson

 

deixa-ela-entrar2 Os clássicos podem aparecer de algumas formas, mas sobretudo de três maneiras. Ele já vem com cara de filme grande, gera muitas expectativas e muita gente torce pro maldito afundar mas não consegue, como exemplos práticos temos desde E o vento levou até o recente Avatar. Também podemos ter aquele filme que é descoberto depois em dvd mesmo, como À espera de um milagre e tem aquele filme que escapa de todo radar cinematográfico em alerta, normalmente uma produção pequena que se destaca por sua ousadia, caso do recente Distrito 9 e desta pérola sueca.

Em tempos em que o conceito original de vampiro está sendo reinventado a cada dia, sendo que, recentemente, sua pele virou diamante (vocês nunca pararam para pensar como isso é herético!?), é bom ver o velho mito em tela grande tal como foi criado, inclusive a regra mais estranha que as histórias costumam ignorar, que é a de que um vampiro só pode entrar na casa de alguém se for convidado. Alias, a última vez que vi alguém respeitar isso foi em Buffy, a caça-vampiros, os vampiros eram parados por alguma barreira invisível na porta das casas dos moradores de Sunnydale sendo que essa até hoje era a interpretação mais plausível para essa parte da lenda, contudo devo informar que Tomas alfredson criou uma cena muito mais fantástica para explicar isso. Alias, creio que todo o filme deve girar em torno dessa cena, tanto é que o título do filme se remete a esse detalhe.

Oskar (Kare Hedebrant) é um menino de 12 anos, sensível e infernizado dia-a-dia pelos valentões da escola. Em sua casa ele fica imaginando o dia em que vai se vingar. Eli (Leni Leandersson uma promessa de grande atriz) é uma vampira e sua nova vizinha, também de 12 anos mais ou menos. O filme não te enrola. Ele vai direto ao ponto por meio de um terceiro personagem que é o pai de Eli, um sujeito atormentado pois se tornou um serial killer, visando proteger sua menina. Antes dos minutos iniciais ele já está assassinando um jovem para coletar sangue, contudo ele já está demasiadamente conhecido e seus ataques costumam a não dar certo, sendo que em dado momento Eli vai ter que se virar sozinha. Parte do drama é que os vampiros não são seres  bonzinhos que podem comer outra coisa, ou podem só tomar sangue de animais, eles tem que sugar sangue humano e fresco! A genialidade é que, assim como Freud inaugurou a psicanálise e Otto Lara Resende fez um clássico da literatura  nacional ainda não descoberto (A boca do inferno), o filme nota também que as crianças não são boazinhas. Isso pode ser visto tanto na gangue de pentelhos que enchem o saco do protagonista, quanto na imagem que Eli faz do mesmo. Não há nada de bonitinho no mundo infantil do filme, a única coisa tocante é o relacionamento que vai se desenvolvendo entre os dois protagonistas.

No todo o filme é uma história de amor infantil, tão interessante quanto o clássico da sessão da tarde Meu primeiro amor, e se não mais tocante. Há algumas transgressões interessantes na estrutura desse romance, pois ao mesmo tempo em que temos a ingenuidade própria da idade há um relacionamento que transcende  o básico, um amor platônico que fica no silêncio entre os dois, ou sentimentos mais sensuais entre os dois como Oscar expiado Eli trocar de roupa, ou ela própria se embrenhando nua em sua cama.

E logicamente a genialidade maior reside no diretor que consegue combinar gêneros variados na sua obra. Sim, é um romance. Macabro, mas um romance. Contudo ele  combina isso um verdadeiro encadeamento de assassinatos e cenas fortes com uma suavidade incrível. Você não abstrai desta história que em certos pontos refletem as sutileza dos gestos dos protagonistas e em outras surge um homem deformado caindo 7 andares abaixo. Essa talvez a principal qualidade da obra, a sua direção competente. Tomas lembra muito Wong Kar-Wai na relação dos personagens com o espaço, ou como o espaço físico reflete as personagens em certos momentos, mas ainda tem pulso firme para criar a tensão, simulando a violência mais do que mostrando-a. No final do filme isso fica ainda mias claro, pois ele vai aos extremos desses dois tópicos sem perder o filme.

Um romance fantástico, vale muito a pena assistir. Só para salientar ele já ganhou 57 prêmios desde sua estreia em 2008, sendo que está indicado ao Bafta de Filme estrangeiro deste ano. Quando vai estrear? Estreou em setembro, só na rede Unibanco de cinemas.e ainda está passando em uma sessão especial há 00:00 de sexta a domingo, vale salientar que sessão especial no Unibanco é coisa chique, e que romance tocantes com genocídio no meio é algo único e que a Suécia é terra do Bergman e do Nobel e… é muito bom! 10.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ervas Daninhas, Alain Resnais

Ervas_Daninhas Ao final da projeção a plateia já deveras atordoada com o rumo dos acontecimentos é brindada com um sequência de passeios com câmera até chegar no rosto de uma garotinha, que por sua vez faz a seguinte indagação “Quando eu for um gato posso comer comida de gato?”. E o filme acaba e nós ficamos no vácuo tentando localizar onde isso se encaixa na história que acabamos de ver. Lógico que há pessoas que vão sair irritadas do cinema, outras vão sair como se tivessem descobrindo algo mas não soubessem exatamente o que é, e há pessoas que vão se divertir bastante com as situações absurdas do filme. Atualmente aos 87 anos o enfant terrible do Nouvelle Vague continua a chamar as pessoas a sala de projeção sem ter um estilo específico e sempre surpreendente.

Dentro da obra diacrônica de Resnais esse é uma continuação temática de seu último trabalho Medos privados em lugares públicos,  vide que a matéria prima do filme são as intricadas relações humanas, contudo é totalmente diferente em sua concepção, se em Medos o maior charme está nas histórias que se entrecruzam em uma Paris paralisada com a Neve, o roteiro de  Ervas Daninhas é extremamente simples sua execução que é complexa.

Marguerite (Sabine Azéma que também estava em Medos Públicos) é uma mulher estranha que tem sua bolsa roubada, Georges Palllet (André Dussollier, perfeito) acha sua carteira e partir daí começa um caso de amor a primeira vista, ou a primeira neurose vide que Georges é outra pessoa muito estranha. Parece simples mas não é, Resnais destrói a primeira premissa de amor à primeira vista quando ele só se encontram no terço final do filme e Georges pergunta para riso geral “então você realmente me ama” . A relação desenvolvida antes disso é quase uma psicose de Georges em perseguir Marguerite no telefone, espionando-a e imaginando em sua própria solidão o porquê dela não querer conhecer a pessoa que encontrou sua carteira. Depois que ele para de  importunar-la é a vez dela de se sentir angustiada com a solidão que a falta dos telefonemas de Georges. (?). Paixão? Loucura? Psicose? O fato é que um relacionamento estranhíssimo.

Junte-se a isso o fato de termos vários gêneros dentro do filme do romance, a sátira deste, temas noir, comédia de humor negro e um desempenho estrondoso dos dois atores principais, aliados a câmera nada simples de Resnais que filma os dez primeiros minutos sem mostrar o rosto dos personagens, usufrui de câmera lenta, sátiras do cinema e joga ervas daninhas em nossa cara toda vez que a história toma outro rumo. O enfant terriblé! Se à algo constante no filme é seu clima de surrealismo que só se torna perceptível no final quando você já está atordoado, mas pontua o filme desde de seu início (Ele começa com uma grande descrição de pés), pronto a salada está completa.

Outro ponto importante da película é o fato de escutarmos o pensamento dos personagens e como sas neuroses são pautadas por coisas sem importância, ou mais especificamente por besteiras. Georges começa sua perseguição pelo fato de Marguerite no telefone não ter querido conhece-lo pessoalmente, Marguerite por sua vez vai atrás dele primeiro por querer saber se ele está bem, depois por ele não estar mais reparando nela. Esses pensamentos de situações pequenas que se desenrolam em tempestades interiores talvez sejam as ervas daninhas do ´titulo, aquilo que começa pequeno e depois é calo no cérebro nos incomodando de maneira importuna. Assim também é a última frase do filme, que por parecer não ter lugar dentro da história fica remoendo em nossas mentes. Um presente de Resnais para seu público? Talvez. Com 87 anos e ainda um enfant terrible.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SHERLOCK HOLMES, Guy Ritchie

sherlockholmes "Elementar meu caro Watson" não é proferido nenhuma vez, Sherlock arrebenta a cara de dois gorilas logo no início da película e sua arrogância e sarcasmo pululam nesta encarnação do personagem por Robert Downey Jr. Com certeza esse não é o Sherlock Holmes que você conhece muito menos que eu conheci, Entretanto quem se aventurou a conhecer a obra original de Sir Arthur Conan Doyle se alumbrava ao descobrir um Sherlock também diferente das transposições cinematográficas. O Sherlock de Doyle é muito mais introspectivo, usa drogas e está muito mais para o nosso tradicional anti-herói do que para o símbolo de boas virtudes, mas o que podemos esperar de alguém que se diverte memorizando cada tipo diferente de terra nos arredores de Londres?

Talvez por isso essa adaptação fosse tão aguardada, uma promessa de fazer um filme mais próximo do ideal do detetive estranho criado há dois séculos e também porque o último grande filme com Sherlock Holmes do qual me lembro se centrava em sua infância e passa na Sessão da tarde (logicamente picotado), contudo fora uma superprodução para a época e uma reinvenção inteligente do personagem, o filme foi o Enigma da pirâmide. Desde então não havia uma superprodução como a que foi designada para este filme que, alias, já está pronto há mais de um ano.

A abordagem segue uma fidelidade estrutural na obra de Doyle e em certos personagens, mas com a já habitual necessidade de adaptar a novos tempos (e leiam-se aí adolescentes), o filme ganhou ares mais modernos em seus protagonistas, e em especial no personagem de Sherlock que afasta a imagem do detetive velho, fechado e anoréxico e entra o galã da meia idade redescoberto Robert Downey Jr, forte e sarcástico. As mudanças já eram previstas na pré-produção sendo que quem abraçou o projeto foi o bad-boy Guy Ritchie, que para quem não conhece é o ex da Madonna e é o Quentin Tarantino inglês, o que já demonstrava o caráter dirty real estético e ação incessante que o filme iria ter. Quando saiu o trailer já se comprovou tudo o que era pensado a respeito, Sherlock Holmes estava de volta em grande produção e em um filme que vai reintroduzir o personagem na cultura pop. Mais afinal de contas, o filme é bom?

Sim ele é. Temos três situações distintas: Se você é um ignorante no assunto vai encontrar um filme legal em que vai se divertir bastante com a história e química entre os dois personagens. Se você conhece um pouco do universo e sabe que Baker Street não é uma novela tosca do Jô Soares, e sim a rua em que Sherlock incomoda a todos com seu violino, mais precisamente no 221b, você vai gostar de ver a nova versão e ver a série de citações e homenagens ao universo de Sherlock, estão todos no filme até mesmo o Moriarty. Se você é do Hard core fan-club (e eu não sabia que existiam tantos), você vai achar que faltou algo no filme, e será o Sherlock Holmes dos livros, pois a transposição interessante de Downey se parece mais com ele do que com o personagem clássico.

A trama é relativamente simples, sendo que as complicações estarão ligadas aos mistérios do sobrenatural que Lord Blackwood (Mark Strong, em papel bem simples) expõe na tela. Sherlock já começa indo atrás do vilão e o prendendo por múltiplos assassinatos envolvendo magia negra, após a morte deste por enforcamento o mistério continua, pois ele volta dos mortos e os assassinatos continuam, aumentando sua fama e o medo em Londres. A isso se junta os problemas de relacionamento entre Watson (Jude Law muito bem) e Holmes, já que Watson está partindo para a ventura do matrimônio e Irene Adler (Rachel MacAdams), o grande amor da vida de Holmes reaparecendo o que significa mais problemas.

É um filme que se centra muito mais no contraste entre a ação ininterrupta e a comédia inteligente de Ritchie, que não consegue fazer nada próximo do drama, mas não passa disso também. Creio que seu único defeito está na parte estrutural, que ironicamente foi a transposição mais fiel da estrutura dos livros, pois quando chegamos ao final da projeção em menos de cinco minutos Holmes resolve todos os mistérios do Lord Blackwood, em uma verborragia à la Robert Langdon, que pode deixar muitos espectadores, com o olhar “what a fuck?”, pois as resoluções são bem inventivas. O que funciona muito bem no livro, no cinema fica maçante, porém é só um detalhe. Vale o ingresso para pura diversão.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

UM SONHO POSSÍVEL, John Lee Hancock

      o_lado_cego   Deus do céu. Sandra Bullock vem forte para  o Oscar!!!!! Seu papel não é algo extraordinário, mas a boa imagem do filme, seu sotaque e uma performance bem diferente do usual devem garantir uma indicação para a bela quarentona. Se a Julia Roberts conseguiu, torçam os dedos.
         O filme no caso ainda não foi lançado no Brasil, contudo como faço parte da Associação Estrangeira de Hollywood eu já vi rá.rá.rá. Pelo menos o exemplar que vi saiu desses DVDs que são distribuídos para eles, mas não digo como tive acesso a isso, pois não vou queimar minha fonte. Em todo caso resolvi assistir este dessa forma, pois de acordo com o histórico de filmes que tem o futebol americano como centro em território brasileiro, não vai importar que ele não se centre nisso, que seja para toda a família e que seja um filme emocionante de amizade... Ele vai passar direto por nossos cinemas! Se você por acaso ficar com vontade de assistir não espere uma segunda chance quando ele sair.
         A história é bem básica: Uma mulher rica e de vida totalmente resolvida se depara com o grande moço Michael, que apesar da idade avançada esta nas primeiras séries do Ensino fundamental americano, ela acaba o ajudando por uma noite pois ele não tem onde ficar, o que acaba virando uma temporada inteira, um apego com a família e uma adoção legal por parte da família daquele menino que tinha tudo para ser mais uma vítima na guerra e gangues, ou alguém sem futuro nas periferia das grandes cidades americanas. Ele se dá bem com todos os membros e devido ao seu tamanho elevado, seu instinto protetor e bom coração a família o incentiva a entrar para o esporte, mais especificamente ao futebol americano. Por que isso? Para quem não sabe não existe USP,Unesp, PROUNI ou qualquer tipo de faculdade gratuita nos States. Contudo a melhor maneira de não pagar os estudos universitários é entrando como atleta da universidade. Milhares de bolsas são distribuídas para os melhores nadadores, jogadores de basquete e tudo que possa existir competição. Depois ninguém sabe porque os caras ganham quase tudo nas Olímpiadas! Não pense que o mérito por intelecto é jogado fora, há bolsas para esses alunos também, contudo é muito interessante que Universidades avaliem o desempenho  poderiam ter mais chances nos estudos, enfim...
        A personagem de Sandra tem um gênio mandão que combina bem com a atriz. Acho que nunca fez um papel dramático que caísse tão bem (Alguém assistiu aquela abobrinha do 28 dias?), lógico que o cômico será pelo resto da eternidade a Miss Simpatia, mas aqui ela sustenta boa parte do longa sozinha. Toda essa caridade gratuita que vai se desenrolando na tela é porque ela põem a veracidade na personagem, o roteiro não explora as contradições que poderiam existir ou conflitos que poderiam recorrer. O filme é feliz, você fica torcendo para que todo mundo fique com o sorriso no rosto no final e saíam abraçados. Ao final da projeção levantam uma questão que poderia tornar a coisa muito mais complexa, mas com mesma sutileza que ela é introduzida, a Sandra manda para escanteio antes que o drama realmente chegasse e você saí feliz do filme. Bem legal, há um certo exagero nas indicações que ela anda recebendo mas é indiscutível que ela é a alma do filme.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ABRAÇÕES PARTIDOS, Pedro Almodovar

 

   abraços partidos

     Existem muitos casos de amor platônico entre o diretor e seus atores: Woody Allen e Diane Keaton, Ingmar Bergman e Liv Ullman, Alfred Hitchcock e Grace Kelly, Felini e Marcelo Mastroianni. Atualmente podemos dizer que as obsessões estranhas de um certo diretor espanhol começaram a se centrar na esbelta figura de uma musa clássica: Penélope Cruz.
    Não por menos. Penélope é a diva não só de Almodóvar, mas de nove entre dez indivíduos do sexo masculino, e para certas mulheres também. Em Volver seu trabalho tinha sido nada menos que extraordinário, em Vicky Cristina ela roubou boa parte da projeção para ela. Se no primeiro a protagonista era sua personagem durona e sentimental, e no segundo a coadjuvante do filme de Woody é essencial para as múltiplas confusões da trama , nesse novo filme de Penélope a atenção é só pra ela, gira em torno da obsessão de um diretor por sua protagonista. Nada mais metalingüístico do que uma declaração de amor escancarada por parte de Almodovar.    Talvez a palavra para descrever este filme seja esta: a metalinguagem a que se propõem. Um diretor nos tempos atuais ganha a vida escrevendo roteiros. Seu drama é a cegueira que o atingiu em algum ponto de sua carreira e o impede de continuar dirigindo, tanto que adota um outro nome, um pseudônimo que utilizava e encarnou em seu verdadeiro ser. Mas nada de coitadinho, ele se vira muito bem sem a visão. Alias começa a projeção levando uma loiraça para a cama só com a lábia.
    A morte de um empresário o faz relembrar a história da realização de seu último filme, um fracasso de público e crítica e a figura de Penélope, atriz principal do longa casado com um magnata poderoso e obcecado por ela. Penélope e o diretor se envolvem em um tórrido caso amoroso que será a tragédia que o longe sugere. Nada de mais no roteiro, porém as vezes em Almodóvar o que basta é sua realização. As cores fortes, característica principal do diretor estão em sua força máxima, e em cada close diferente em Penélope encontra um declaração de amor não só à bela espanhola, mas à varias musas do cinema como Marilyn, Audrey (principalmente está), Grace Kelly e a lista é extensa. Nada mais lógico, dentro da estrutura ao que se propõem, pois carrega consigo um certo poetismo vide ao fato de Mateo não enxergar, então cada cena de sua lembrança é construída para entrar na memória.
    Ao final do filme suas homenagens chegam ao máximo, ao fechar a cena com a despedida de Mateo à sua amada, um abraço de 17 anos que só se completa agora. E Mateo tem a chance de finalmente montar o filme que queria realizar, mesmo cego ele recomeça o trabalho e a cena que nós vimos ser realizada  trilhões de vezes, aqui parece montada sem os erros e sem a trama ao qual ela se constituiu e o resultado é uma cena engraçadíssima que é nada mais que um homenagem ao seu próprio filme de 89. Mulheres à beira de um ataque de nervos. O filme que revelou Almodovar ao mundo.
    Bem... Em um ano de egos pequenos como um filminho de Tarantino em que ele encerra a projeção dizendo que fez a obra-prima, Almodovar homenagear a si mesmo faz parte da festa. Com certeza esse não é o trabalho mais significativo de Pedro, mas com certeza deve ser o mais pessoal, e se você não liga para nada disso, temos Penélope, que é motivo suficiente para qualquer um.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Temporda de premiações no cinema americano

          Cinéfilos de plantão a temporada de prêmios começou. O globo de Ouro é daqui alguns dias. E alguns nomes já vão pintando nas listas de apostas. A categoria Drama é um embate pesado entre Preciosa, Guerra ao terror, Amor sem escalas, Avatar e Bastardos Inglórios. Em comédia parece ficar mais fácil entre o novo cult 500 dias com ela e o bem bolado Julie & Julia. Tem It’s Complicated correndo por fora, Nine sendo o trofeu de maior projeto ambicioso e fracasso de crítica de todos os tempos (Rob Marshall resolveu mexer no 8 1/2 e transformar em comédia musical, deve ter ficado interessante mas…) e Quando beber não case como a coisa mais estranha da década no prêmio da Associação estrangeira de Hollywood.

            A premiação do Sag seguiu o mesmo caminho, e lista do Producers awards saiu esses dias. Normalmente ela não difere muito do Oscar, mas eu achei estranhíssima:

Melhor filme
Avatar – Ganha cada vez mais força. Citando o blog da Ana Maria Bahiana. Cameron tem o dom de fazer o filme certo, na hora certa.
Distrito 9 – Um ano de Fc finalmente. Eu achei fantástico, mas creio que não tem força para ganhar premios do circuito artístico.
Educação – Ele chega devagar e vai conquistando mais fãs.  O filme retrata a relação entre uma adolescente e um homem muito mais velho
Guerra ao Terror – Leiam na outra página. O iraque sem enfeite. Já nas locadoras.
Bastardos Inglórios – Fantástica fabula. Tem um textinho meu assim que saiu.
Invictus – é clint. Vou ver em breve aguardem.
Preciosa – Esse ta aí em baixo. Desde de Sundance só ganah prêmios. Até Mariah Carey
Star Trek – Estranhíssimo. Sou fã, mas por essa eu não esperava.
Up - Altas Aventuras – Lindo! Para crianças de 1 a 100 anos.
Amor sem Escalas – Queridinho da critica. George Clooney viaja e foge da vida e das relãções humanas.

                  A lista do Oscar deste ano sai mês que vem e dessa vez vai ter 10 candidatos (na verdade estão retomando uma tradição da década de 30) possivelmente vai ser bem parecida.

               Mas tudo isso é para falar que esses filmes devem invadir nossos cinemas em alguns dias ou semanas. Como eles guardam todas as pérolas para essa data fiquem atentos, também para: Onde vivem os monstros de Spike Jonze, fantasia dark for kids. A estrada, outra atuação perfeita de Viggo Mortensen, baseada numa obra perfeita de Cormac McCarthy. A Single man, Colin Forth em um papel tenso de um homem que perdeu seu amor de 16 anos, A Serious man, Os irmão Cohen judiam do protagonista desta nova obra, Uma vida interrompida, Peter Jackson parece ter errado a mão mas veremos… Dr. Parnasus e a nova loucura de Terry Gilliam e o próprio Nine para ver até onde Rob Marshall foi reinventando Fellini.

Preciosa, de Lee Daniels

preciosa 

    Este filme foi o ganhador do festival de Sundance deste ano, é um dos principais concorrentes da temporada de prêmios americanos do começo do ano e é uma história, sobretudo, fascinante.
    “Precious” é uma menina de 16 anos, negra, obesa e grávida do segundo filho. A escola faz uma expulsão educada com a menina enviando para uma escola de indivíduos excluídos onde ela pode tentar recomeçar, isso é se ela própria e os demais acreditarem nela. Contudo o pior pesadelo de “precious” não é essa vida e sim o confronto com uma mãe dominadora e terrível, interpreta da brilhantemente por Mo’nique, que parece existir somente com a função de destruir a menina por dentro.
    É um filme que trata de questões muito delicadas como analfabetismo adulto, miséria, abuso sexual, incesto, AIDS e um sofrimento crescente na qual a personagem de Gabourey se encontra ao longo dos 120 minutos de projeção. Contudo sua abordagem não é assustadora, pelo contrário o filme passa por esses caminhos sem tornar estes os temas principais do longa. Sua temática é a relação desta menina abusada com uma mãe tirânica, sua força está nesse confronto, belamente retratado de uma forma quase documental.
    Aos cinéfilos que adoram procurar coisas estranhas, além das atuações contida e explosiva das duas protagonistas. Fica marcante a presença dos coadjuvantes a começar pela professora que tira “precious” do fundo de sua auto-depreciação, passando por todas personagens da classe, cada uma desenvolvendo uma personalidade específica durante seu pouco tempo na projeção, e também destaco as participações especiais de Lenny Kravitz, como o enfermeiro do hospital e uma irreconhecível Mariah Carey como a assistente social durona. Sério. Creio que Mariah pode ser uma atriz muito melhor que a companheiras de profissão Jennifer Lopez  ou Madonna. Nada mais lógico em um filme em que o contato humano é essencial para o desenvolvimento da trama, na verdade essencial. Vale o ingresso, especialmente porque a cena final de MO’nique é de arrepiar.

Preciosa estreia dia 29 de janeiro.

domingo, 3 de janeiro de 2010

PEANUTS COMPLETO 1950-1952, Charles M. Schultz


Charles Schultz foi um garoto tímido, que era chamado de Sparky, tinha problemas com garotas e muitas inseguranças, demasiadas para sua infância. Aos 27 anos, após voltar vivo da guerra Ele começou uma das tirinhas mais famosas de nossa geração: Peanuts, ou em tradução livre Minduim. Para quem ainda não identificou por ser muito jovem eu estou falando de Charlie Brown e sua turma, e do excêntrico cachorro Snoopy. Ah... Agora sim você se lembra. A tirinha da qual Charlie Brown nasceu, começou em 1950 e a Lpm vai lançar integralmente a partir desse ano (na verdade começou em dezembro) a obra completa e bote livrinhos para isso pois a última tira que Schultz escreveu fora em 1999. Prevejo então uns 24 ou 25 encadernados de capa dura e com umas 300 páginas.
Houve um tempo em que eu ia na Bienal do livro com a referência de duas editoras para achar algo legal relacionado a quadrinhos: Devir na qual havia uma grande mesa de RPG, na qual uns caras estranhos ficavam jogando e meu maior desejo infantil era aprender a jogar e detonar com aqueles nerds, o Magic fazia muito sucesso e ficava umas menininhas uniformizadas demonstrando as cartas do jogo. E havia Panini, que jogava e creio que ainda joga, uma porrada de revistinhas em várias caixas e você tal como garimpeiro de sebo ficava procurando alguma coisa que terminasse aquela história que você tem parado no quarto.
Enfim... Os tempos mudam isso ainda ocorre provavelmente, mas temos o Quadrinhos na Cia. Trazendo Graphic Novels inéditas a solo nacional, o Tin-Tin voltou a ser publicado, Jbc traz um monte de coisa do oriente, a Conrad, compete diretamente com os dois sem se especializar em nada (Eles perderam o Sandman, estou bravo desde o ano passado), a Via Lettera Ana mal das pernas, agonizando diria...e a L&PM a melhor editora de livros de bolso, começa a se especializar em trazer tiras completas. Eles já tinham uns pockets bem legais do Dilbert, Garfield, Snoopy, etc, Trouxeram todas as tiras do Garfield em um senhor álbum, agora prometem Peanuts completo e creio que podemos ficar sossegados. Eles vão editar.
Falo isso, pois os fãs de Peanuts aqui no Brasil são inúmeros. Se você pesquisar no Orkut quantas comunidades existem sobre o Charlie Brown, você se surpreenderá, sendo que a que eu mais gosto é “Eu tenho complexo de Charlie Brown!” Bem eu também tenho! Se os mais novos só se lembram do Snoopy, essa publicação cronológica é fantástica pela riqueza que ela contém. Desde a primeira tira sentimos o porquê de ser ta revolucionária. Charlie Brown passando e Sermy comentando sobre o “bom e velho Charlie Brown”, frase que o seguirá sempre, para no último quadrinho ele completar. “Como eu o odeio”. Essa maldade no mundo das crianças é a tônica das primeiras histórias, o universo adulto retratado nas figuras de Charlie, Shermy, Paty e Violet é o que se seguirá sempre em todas as transposições. Charlie Brown usa terno e roupas estranhas, discute com as personagens assuntos referentes ao amor, se revolta, amarga seus fracassos ao mesmo tempo que come tortinhas de lama, brinca com os amigos e vai crescendo conforme o tempo passa.
Nesse volume temos os primeiro balões de pensamentos do Snoopy, o aparecimento de Schroeder (uma criação genial diga-se de passagem), a primeira aparição de Lucy ainda bebê e de seu irmão Linus. Mas escolho como o principal momento as série de tiras que Charlie fala, olhando diretamente para nós, “Eu não agüento mais!!!!!!!!!!!!!!!!”. Esses momentos é o que tornam a tira um clássico. Dentro dos quadrinhos o menino Charlie Brown é o melhor representante da teoria mal estar na modernidade que começa em Baudelaire e ainda é visitada por Zygmaunt Baumann. Um dos motivos de sua popularidade é essa depressão constante ao qual ele se lança e que é tão similar ao que se realmente sente nesse mundo pós-moderno. O mais interessante é ver como a tirinha vai tomando a cara desde os primeiros quadrinhos em que Cherry e Paty apareciam mais, a partir da 24ª tirinha é que começam a se centralizar na figura de Charlie, já ao final do volume notamos como as crianças cresceram um pouco, outros personagens foram introduzidos e uma certa constância nas pequenas histórias começa a transparecer e dar uma personalidade a estes. Exemplar obrigatório na casa de qualquer fã de quadrinhos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ 2010 COM TOPS


Bem pessoal, um ano se foi e agradeço a todos que me leram e espero continuar por muitos e muitos anos escrevendo bobagens.
Para comemorar a passagem de ano fiz um pequeno top a respeito a respeito dos assuntos usuais deste site. Tudo que mais me tocou está aí embaixo. Espero que gstem:

Um abraço e Feliz 2010
CINEMA

1 – Distrito 9, Neil Blokamp (USA/AFS)
2 – Avatar, James Cameron (USA)
3 – Anticristo, Lars Von trier (USA/DIN)
4 – Valsa com Bashir, Ari Folman (ISR)
5 – Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino (USA)
6 – 500 dias com ela, Mark Webb (USA)
7 – Desejo e Perigo, Ang Lee (CHI)
8 – Up – Altas Aventuras, Peter Docter (USA)
9 – Coraline, Henry Sellick (USA)
10 – Star Trek, J.J. Abrams (USA)
11 – Abraços Partidos, Pedro Amodovar (ESP)

Livros Adultos
1 – Primavera num espelho Partido, Mario Bennedetti (URU)
2 – Filho da Mãe, Bernardo de Carvalho (BRA)
3 – Leite Derramado, Chico Buarque (BRA)
4 – Caim, José Saramago (POR)
5 – Estrada, A, Cormac McCarthy (USA)
6 – Zazie no Metrô, Raymond Queneau (FRA)
7 – Fantástica vida breve de Oscar Wao, Juniot Diaz (USA)
8 – Luuanda, José Luandino Vieira (ANG)
9 – Antes de nascer o mundo (Jesusálem), Mia Couto (MOÇ)
10 – Syngué Sabour – Pedra-de-paciência, Atiq Rahimi (AFE)
11 – Garoto no Convés, John Boyne (ING)

Livros Infantis e Juvenis
1 - Marcelino Pedregulho, Sempé (FRA)
2 – Tem um cabelo na minha terra, Gary Larson (USA)
3 – Caneco de Prata, João Carlos Marinho (BRA)
4 – Hoje não quero banana, Sylviane Donnio; Dorothée de Monfreid (FRA)
5 – Ladrão de Raios, Rick Riordan (USA)

Quadrinhos

1 – Retalhos, Craig Thompson (USA)
2 – Sandman: Entes Queridos, Neil Gaiman (USA)
3 – Jimmy Corrigan: O menino mais esperto do mundo, F.C.Ware (USA)
4 – Nova York – a vida na grande cidade, Will Eisner (USA)
5 – Sandman: Vidas Breves, Neil Gaiman (USA)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

GUERRA AO TERROR, Kathryn Bigelow


Tirando de lado o infeliz título nacional que salienta o esteriótipo do povo do Oriente Médio, The Hurt Locker é um interessante filme sobre o dia-a-dia de uma equipe de desarmamento de bombas no Iraque, ao receber um novo líder faltando 38 dias para o término das atividades a vida do grupo muda radicalmente pois James, é uma pessoa difícil que entra de cabeça nos riscos de se deparar com bomba mortais em plena guerra no Iraque,

De um lado este filme é um avanço artístico em como a guerra atual vem sendo retratada na tela grande, em que anda servindo para qualquer filme de ação em que os inimigos não precisem de muitas motivações a não se a etnia. Bem... vimos isso no cinema americano por um bom tempo quando se tratava de russos, ou dos vilões mais pops do século XX, os nazistas, Hurt Locker não tenta complicar demais as relações dos fuzileiros diante dos inimigos islâmicos, há alguns resquícios, mas as relações intrínsecas ou motivações dos guerrilheiros iraquianos, para isso você vai ter que ver Paradise Now, por outro lado não há julgamento dos personagens ou qualquer sentimento de patriotismo sendo lançado nas cara do público como o cinema de propaganda.

Sua inovação artística está em demonstrar essa guerra da perspectiva dos soldados com extremo realismo sendo quase confundido como um documentário real, além de construir um tensão frequente em seus momentos chaves que desordenam os sentimentos dos soldados enviados na missão. Esse é sobretudo um filme sobre soldados e para isso, constroem um personagem provável para condensar tudo que possa existir no interior de um soldado: Sua valentia estúpida, alguém próximo de ser um louco, que corre risco de se envolver, chora e tem dúvidas sobre a missão. Os culpados por essa concepção são a diretora Kathryn Bigelow e o ator principal Jeremy Renner, a primeira por conseguir fundir sentimentalismo e tensão em um filme só, o segundo que com um trabalho competente consegue criar complexidade em um personagem que poderia ser um simples action hero. A complexidade é ideal para se entender o sentido mais profundo a que o filme se pretende sutilmente sendo explicitado na primeira frase do filme “The war is drug”. Não uma droga nem seu sentido denotativo, mas uma droga real que vicia o personagem principal e o torna incapaz de se adaptar a sociedade. Ele precisa da adrenalina da guerra para viver, precisa quase morrer para viver.

Esse é um dos principais concorrentes à premiação do começo do ano: Globo de Ouro, Oscar, SAG, Bafta, etc... é um filme lançado no começo do ano em solo americano e que chegou aqui direto em dvd em abril. Então você pode assistir no conforto do lar um filme que pode ganhar o Oscar de melhor filme em fevereiro. Creio que isso deva significar alguma cosa, mas ainda não teria palavras para expressar. Só indico que isso também deva explicar este título em português estranhíssimo que nada tem a ver com o filme ou o fato de encontrarmos no poster do dvd só o nome das participações especiais (Ralph Fiennes, Guy Pearce e David Morse devem somar 10 minutos de projeção o todo) e não dos atores principais. Mas são só perguntas sem respostas.

domingo, 27 de dezembro de 2009

JIMMY CORRIGAN – O MENINO MAIS ESPERTO DO MUNDO, F.C. Ware.



Jimmy Corrigan é um homem de 37 anos, castrado emocionalmente, inseguro de tudo, vive encolhido em si mesmo e telefona para mãe todo o dia. Um belo dia ele recebe uma carta de uma pessoa que alega ser seu pai e o convida para passar as festas de final de ano com ele, para eles finalemnte se conhecerem. Jimmy vai e descobre um pessoa da qual ele não tem nada em comum e esse encontro relativamente curto vai ser o primeiro e o único, conforme a capa nos informa. Essa é a história do quadrinho em seus termos gerais, contudo sua constituição é a mais complexa possível, elaborada a enésima potencia nessa obra que é considerada o Ulisses do quadrinho.

O que pode afastar um leitor mais acostumado com o selo DC/Marvel de agilidade de histórias mensais, mas deve agradar o nosso público adulto de graphic Novels. Jimmy é um quadrinho para poucos, a realidade se confunde com o sonho, a imaginação se sobrepõem por vezes e você não distingue o que é realidade e o que é a cabeça do protagonista. Há explicações técnicas e maquetes para serem “feitas” pela e a história também abrange boa parte da vida de Jimmy avó no começo do século, e do Jimmy pai em seus anos de juventude. Há algumas observações sociológicas a cultura americana e uma grande análise do preconceito racial dentro da estrutura da obra. Ainda sobre a estrutura é um eterno vai e volta ao passado que ainda fragmenta a narrativa.

A primeira barreira a ser transporta é um prólogo como bula d remédio que ensina como ler o livro que tem em mãos. Escrito como se fosse uma bula de remédio, prepare-se para ficar uma boa meia-hora om as vistas juntas para entrar na narrativa levemente engraçada de F.C. Ware, que contém algumas críticas deliciosas a imagem dos quadrinhos atuais e que encontra sua força não no tom cômico das atitudes dos Jimmy's, um patetismo que leva a uma profunda melancolia deste indivíduos fechados em si mesmo.

Sobre estes indivíduos é que se centra a totalidade da obra, uma vez que a multiplicidade de Jimmy's torna o título ambíguo. O jimmy atual não é retratado com um menino, apesar de se tornar claro que ele é aquele adulto que regrede a infância com muita facilidade. Ele simplesmente ignora todas as barreiras da vida adulta, a emancipação e falta de interesse em relacionamentos são os mais gritantes, assim com sua carência paterna que o força a ir em encontro ao seu pai biológico. O outro Jimmy, que é seu avó natural também, tem boa parte da história para ele e sua similaridade com o protagonista não é mera coincidência, as carências afetivas amorosas, a insegurança perpetua e o relacionamento conturbado com o pai são o drama do Jimmy de 1900, um espelho da situação atual, que demonstra que os males de uma família são eternos;

Por fim, sobretudo, Jimmy Corrigan é um livro sobre os relacionamentos humanos. O detalhismo de sentimentos e ações é incrível, o desenho que se centra só nos protagonistas é belíssimo, uma explosão de cor que torna os temas ainda mais pesados pela simplicidade dos traços, mas a parte imaginativa de sonhos e reflexões, tornam o livro um objeto de estudo da psicanálise e suas interpretações são diversas. Um livro sobretudo fascinante e uma história fantástica.

AVATAR, James Cameron



“Eles não vão sair. O que nós podemos oferecer a eles: Cigarros e bebidas? Eles não querem nada de nós. Eles não vão sair”

O Filme do ano! O Filme que vai revolucionar o cinema 3-d! O filme de James Cameron, o diretor de Titanic! É assim que essa singelíssima produção que consumiu de 300 a 500 milhões de dólares está sendo vendida. Com relação a segunda afirmação eu só posso reproduzir o que andam dizendo, mas com certeza é um dos filmes do ano.

James Cameron é um gênio do cinema. Suas grandes obras porém não vão de encontro com as motivações mais básicas de um cineasta: Atuações pungentes, dramas de grande consequência global, direção ossessiva por cada frame (bom talvez esse ele tenha). Ele só tem uma motivação simples que percorre toda a sua careira: Romper o pré-estabelecido, destruir os limites dentro da obra que se instala. Vejamos uma breve retrospectiva de suas principais obras: Terminator, ficção de roteiro simples, orçamento baixo e com um halterofilista austríaco que não sabia falar inglês, o atual Governator. Aliens, fazer uma continuação de um cult e tentar ser melhorar (lógico que ele consegue). Terminator II, outra continuação em que ele abriu o leque de sua mitologia e inverteu os papéis dos mocinhos e bandidos, de queba ainda começou seu processo de inovação dos efeitos digitais com seu T-1000. O megalomaníaco Titanic parecia ter sido sua última fronteira, com 270 milhões para construir e destruir qualquer coisa que quisesse, e contando a mais básica das histórias de amor, o fez com tal primor e habilidade que teremos o recorde de público por muitos e muitos anos. Bem não era, quando você sai do cinema em Avatar tem a impressão de ter visto uma coisa tão fantástica que não imagina para onde o cinema está indo.

Não é que a história seja originalíssima, alias ela é tão básica quanto em Titanic, é a história da colonização revisitada no futuro. Tirem os índios e ponham alienígenas azuis de 4 metros de altura, a busca por qualquer minério, especiaria ou combustível que percorra nossa história e substitua por uma pedra, que ninguém sabe o que faz no filme, mas vale 20 milhões o kilo (como se isso fosse uma justificativa) e em vez de embarcações, latarias e equipamento pesado de destruição e temos nosso filme.

Os humanos estão em Pandora, instalados em uma base no planeta para pesquisa, bancados por uma grande mineradora na verdade eles querem o minério que está no planeta e está localizado embaixo da aldeia dos humanóides do planeta, os Na'vi. A partir daí entra o personagem de Jack Sully, um militar paraplégico que pode controlar o avatar de seu irmão gêmeo por ter um genoma igual (infelizmente há um furo científico na história, mas passa...). O Avatar é uma mistura do Dna humano e alienígena para criar um ser como os Na'vi, um outro corpo para o usuário que é um Na'vi.
Jack começa por fazer jogo duplo, mas caba se apaixonando por Neythli a filha do chefe do grupo, pela cultura esquecida e pela própria Pandora, a ponto de não saber mais se é um humano. O conceito de Avatar é basicamente esse, existe uma complexidade metafórica leve como uma parábola, mas a mais imaginativa é próprio conceito de ser um Avatar. Sentir com todos os sentidos as maravilhas e perigos de pandora. James não propõem só um filme, mas uma completa imersão na Floresta nos céus e aí o 3-D ganha mais força pois permite o espectador não ter objetos arremessados em sua cara como um brinquedo divertido, mas sentir as folhas passando por suas vistas ou a poeira acostando em seu ombro.

A complexidade do filme é visual. O que James tenta novamente, pois esse é um tema recorrente, é demostrar como a tecnologia pode ser prejudicial e como o futuro pode ser sombrio, não sabemos o que aconteceu na Terra, mas podemos supor que algo ruim anda acontecendo por lá. Há mercenários, sucatas como veículo do exército e a motivação principal é matar seres vivos em troca de dinheiro. E em contrapartida a esse mundo mecânico que vemos na base a floresta está cheia de realismo tanto em seus singulares habitantes, como nas cores fosforescentes que surgem ao cair da noite. E em certas cenas ele atinge com certeira habilidade a emoção do espectador como Jake se deliciando ao esfregar os pés de seu Avatar na terra em sua primeira caminhada, ou quando o clã dos Na'vi é expulso de sua morada com gás para ver a arvore gigantesca ser bombardeada até sua queda e o terror e tristeza está estampado na cara de seus habitantes. Vale muito o seu ingresso para assistir esse espetáculo da sétima arte, já inscrito na história.

Ah sim.. 70% o filme é digital, incluindo os Na'vi, mas seu realismo transpassa o que até então foi visto no cinema. Se tivemos o Gollum alguns anos atrás, aqui temos uma população inteira que chora, se emociona e principalmente nos atores principais é de se notar a perfeição da captura de movimento que consegue transmitir por meio do bonequinho azul tudo o que aquele personagem sente. Só mais uma inovação do Sr. Cameron.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Espiões, Os, Luis Fernando Veríssimo


É bom notar que as pessoas sentem falta do meu lento resmungar, ou das minhas hiperbólicas efusivas ladainhas elogiosas. Para alguém que ressuscitou o blog a pouco, fico feliz pelo apoio. A explicação para minha fuga do mundo virtual está em uma tríplice complicação. Curso de línguas – trabalho de verdade e Faculdade em término, o que já ligo com a primeira frase do recente romance lido: Formei-me em Letras e bebo para esquecer, o que não está tão longe da realidade deste crítico de internet.
O personagem de Veríssimo é um editor que tem seu grande momento da semana quando chega a segunda-feira, de ressaca, e ele recebe um monte de originais ruins, em que ele pode utilizar toda a sua maldade para detonar o autor, sendo ele mesmo um autor fracassado. Só por esse começo o livro já vale a lida, contudo ele continua se movendo por personagens mais satíricos e estranhos, todos fracassados e patéticos que não deixam nenhum leitor rabugento isento de uma risadinha leve no canto da boca: Dubin o fiel amigo, que inventou um condado para ele e é outro formado em humanas (quase uma terra-media), o professor Fortuna, charlatão de carteirinha que gosta de sexo tântrico, Marcito, o editor sacana que se recusa a pagar Direitos autorais, Edmar autor de livros de astrologia famoso e uma gangue perigosíssima exilada em uma cidade do interior.

A salada está pronta para Luis Fernando exibir seu bom humor contínuo. A história se centra na figura de uma personagem que está armando uma vingança escrita contra os tipos perigosos com quem ela vive. Ela envia os originais de seu texto para o nosso narrador que se apaixona pela história sombria e sem vírgulas que recebe. O nome da personagem é Ariadne, como da lenda do Minotauro e tece sua teia sob todos os amigos do narrador também, estes vão até a cidade para salvá-la, já que ela ameaça se matar. É verdade? Pouco provável, mas nossos personagens vão do mesmo jeito como espiões em missão de salvamento. Essa talvez é a grande sacada do livro. Nosso narrador que leu Le Carré demais e está a procura de um sentido em sua vida se joga de corpo e alma na aventura, em que o final vai mostrar que os limites da ficção e realidade pressupostos por nossas mentes leitoras são mais estreitos do que se imagina e o perigo pode ser muito real.


Leve, engraçado e ao mesmo tempo assim que terminei a leitura me inquieta essa sensação indescritível que a história é mais metalinguística do que se pensa a princípio, mas um romance que fala desse pessoal formado em humanas que estão destinados a serem um rocambole de significações que ainda estão para serem descobertas. E é a esse pessoal de humanas que me junto agora formado em Letras e já bebendo literatura para comemorar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

trailer de Alice in Wonderland



estréia 5 de março de 2010

domingo, 29 de novembro de 2009

ENTES QUERIDOS, de Neil Gaiman


Delírio: “(responsabilidade) é mais que isso. As coisas que a gente faz criam Ecos. Tipo, se você para na esquina e admirar um relâmpago em igue-zague...zap! Por um tempão e coisas vão para nessa mesma esquina e olhar pro céu sem saber o que estão procurando. Alguns vão enxergar um relâmpago-fantasma. Outros podem até ser mortos por ele. Nossa existência deforma o universo. Isso é responsabilidade.”


Penúltimo capítulo da maior de todas as histórias em quadrinhos, ou podemos dizer que é efetivamente o último, pois o álbum seguinte “Despertar” em minha opinião é muito mais um prelúdio pra fechar as pontas soltas, em todo caso é o maior e mais emocionante, desfecho perfeito para uma história perfeita.
Para os mortais que não conhecem Sandman, esta foi a série que revolucionou os quadrinhos adultos da Vertigo entre 1987-93, publicado esparsamente no Brasil pela Globo somente suas edições em brochura dão conta da tamanha genialidade em se fundir cultura pop, erudita, mitologia grega, nórdica, religião, história e muitas outras áreas em torno de Morpheus, ou Sonho, ou Sandman, ou moldador. O senhor dos sonhos. Preso por 80 anos, descendo ao inferno para procurar a amada, em contos curtos em que encontra William Shakespeare, procurando o irmão desaparecido, Destruição. Todas as suas histórias mostravam um pouco do mundo obscuro e como este afetava nossas vidas. Sempre disse que não era necessário ler na continuidade para entender a história, o que realmente é verdade, mas ler os álbuns na sequência te dá uma noção d totalidade que não pode ser substituída. Uma prova disso é que aqui ele vai fechar tudo que já aconteceu nos 60 álbuns anteriores.
Para começar a história é o caos: uma criança é raptada e sua mãe entra em desespero, Loki perambula por nosso mundo fazendo vítimas, Delírio procura seu cão, Nuala volta ao reino dos elfos, Morpheus está deprimido pois no álbum 7 (Vidas Breves, fantástico também) ele matou seu filho. Tudo isso começa a interseccionar até as Fúrias, ou Bondosas (Kindly Ones no original o que, infelizmente, perde seu duplo sentido em português) aparecem para exigir vingança de Morpheus e não deixaram pedra sobre no Sonhar, ou sonho sobre sonho. As Fúrias são as justiceiras e nem mesmo Morpheus tem mais controle sobre seu reino, o cerco se fecha sobre ele até a única opção para salvar os habitantes de sua terra e viajar as fronteiras do pesadelo para enfrentar as Benevolentes, e ,pasmem, Matthew vai junto.
O maior álbum, nesse ponto é repetitivo falar como ele constrói bem as história, mas seria fácil perder a mão com tantas coisas acontecendo e ele não perde, e um final digno de tudo que foi proposto por aqui. No fim após tantas cenas desconcertantes de belas, como um bebê sendo atirado no forno ou último diálogo de Sonho com sua irmã, Morte, o que álbum nos mostra são as diferentes relações entre seus personagens e a família e como sacrifícios tem que ser feitos em nossa existência. E quase esqueci de falar O melhor álbum.
Pena não ter nas HQ's de banca atuais uma série tão forte e desconcertante como esta foi no passado, lógico que há coisas muito boas com Authority, mas ainda parece que falta algo para se tornar inesquecível. Mark Millar que me desculpe, mas não cega perto do Gaiman fez como este personagem. No momento este álbum está esgotado, a Panini relançará desde o começo ano que vem a série completa, o que é muito bom pois não será perdida para gerações futuras, a editora diz que serão edições definitivas. Não sei como melhorar essa edição da Conrad para ser bem sincero, na dúvida se você quiser acompanhar a saga de Lorde Morpheus consiga este da Conrad, que é uma edição extraordinária. Fica a dica, como sempre, mas no caso desse vocês tem que conhecer!

sábado, 21 de novembro de 2009

AvóDezanove e o segredo do soviético, de Ondjaki


Na PraiaDoBispo as crianças se divertem todo dia no calor inventando brincadeiras. AvóNhete está a reclamar de dores no pé. AvoCatarina sempre de preto, sempre escondida e sempre tirando um sarro da vida. Os russos fazem uma ação “comunitária” construindo um Mausoléu para o povo Angolano enterrar seu presidente, eles só tem que explodir algumas casas da Praia e vão conseguir terminar o projeto. Quem chefia esta empreitada é Camarada Bilhardov, ou Bortadov, ou Sovacov na linguagem das crianças. Uma bomba de gasolina que só tem água salgada e o maluco EspumaDoMar só fala cubano e tem ideias esquerdistas. Esses e mais alguns personagens saídos parte da imaginação, parte das memórias do escritor angolano Ondjaki, constituem uma das narrativas mais verdadeiramente engraçadas sobre a Angola pós-independência.
Luandino Vieira escreveu a bíblia Luuanda, Pepetela tem uma força cruel em seus romances, assim como outros atores menos conhecidos por aqui eles traçam uma Angola e uma Luanda sombria, em que a realidade social é pungente e marcante, fruto de quase meio século de guerra em Angola, da década de 50 até 1975 pela independência (leiam Os Cus de Judas também) e depois de 1976 até 2002 em guerra civil. Incrivelmente Ondjaki não segue o mesmo caminho, talvez por ser o escritor angolano mais novo e famoso atualmente (ele só tem 32 anos e muitos livros editados por lá), sua narrativa não assume o caráter realista buscado por seus antecessores, na verdade por ser narrado do ponto de vista de uma criança, a inocência desse relato que nem chega a citar a Guerra civil diretamente, talvez por isso é deliciosamente engraçada.

A história central está em nosso narrador Ndalu, seus amigo 3,14 (o nome dele é pi) e Charlita, que tem a brilhante ideia de “desplodir” as obras do Mausoleu para salvar a PraiadoBispo. O livro inteiro se move nessa “missão:impossível”, mas que na mágica do mundo infantil vai se concretizar de uma maneira ou de outra. Há uma sutil alegoria à ocupação estrangeira após independência, como o que acontece com a maioria dos povos africanos quando em razão da independência são obrigados a se aliar, por motivos econômicos e por vezes socias, a outros países para conseguir sobreviver. Contudo o  foco principal do romance é o relacionamento das crianças entre si e com os mais velhos, as histórias que a AvóNhete (Mais tarde Dezanove) conta e as lembranças que as vezes atingem o protagonista, trazem um sentido nostálgico ao texto que junto ao seu caráter de filme de aventura, funcionam como uma combinação interessante.
Profundamente pessoal esse livro merece ser descoberto pelo público brasileiro, visto que acho que está passando despercebido por aqui, e assim como “Os da minha rua” pode muito bem se tornar um livro para se indicar no colégio em função de trazer as crianças mais perto de nossos camaradas angolanos, com o perdão do trocadilho. Por que Dezanove e qual o segredo não são os eixos centrais do livro, mas o primeiro é bem inusitado e o último é revelado na última linha do romance trazendo algo de fantástico a essa salada que já tinha de tudo. Vale a leitura.